Pajelanças
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Data de atualização
22 de June de 2026
Código da Fotografia
P21_492
Título da Foto
Pajelanças
Legenda minimalista
P21_492 Pajelanças
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Plano médio fechado na figura do pajé em plena performance. Braços ao alto, cabeça direcionada ao ceú, num gesto da evocação o líder espiritual da aldeia manifesta o ritual. Por uma estranha coincidência, os dedos se alongam num espaços com as penas vermelhas do seu paramento.
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Pajé de fogo
Os passos marcados da dança do pajé vibram pelo chão; as ondas poderosas de muitos tambores comprimem e expandem cada molécula do ar.
Bum! Bum! Bum!
O ritual ancestral ecoa desde épocas distantes, com enredos fantasmagóricos, luzes sobrenaturais e encantamentos. O pajé penetra no mundo invisível manipulando as vibrações sutis da matéria. É uma consciência criadora que transcende o individual e vai se entranhando nas redes hiperconectadas, multidimensionais de energia fervilhante, onde tudo é possível, tudo está disponível no mesmo instante; bancos de dados absolutos são acessados instantaneamente, diretamente, sem intermediários cobrando taxa. O pajé está aqui, está lá, está em todo lugar, e eu também estou!
Então as chamas surgiram do ser encantado, queimando as vibrações densas que amarram a humanidade ao mundo meramente tridimensional. A nossa suposta realidade, efémera e ilusória, monotonamente linear, desmorona no caleidoscópio de luzes que surgem de outros mundos…
Produzida na apresentação do Boi-bumbá, esta fotografia utiliza uma técnica fotográfica que cria o efeito do movimento. Esta representação alegórica do pajé foi realizada com flash montado na câmera e sincronizado na segunda cortina do obturador, criando assim essa sensação gráfica de ação.
A fotografia analógica do pajé de fogo nasceu numa tira de filme 35mm diapositivo, Fujichrome Velvia 50, escondida numa 'câmara' estanque à luminosidade. Naquele exato e esperado momento em que o pajé levantava os braços, meu dedo indicador pressionou o aparelho e deixou entrar, numa janela de 36mmx24mm, aquela quantidade de luz suficiente para gravar as nuances nos sais de prata. Os sais seriam transformados em prata metálica preta, para formar a imagem latente. Isso foi que eu levei para casa, algo latente, para revelar, branquear, fixar, secar montar numa moldura de slide, analizar na mesa-de-luz, arquivar num armário com gavetas e pastas suspensas. Mas o pior ainda era o ambiente refrigerado permanente, eterno — que seria dos frágeis delicados slides expostos ao clima natural da Amazônia? E que dor, que risco enorme
dos cromos que uma âgencia pedisse: teriam que ser embalados e enviados por correio, ficando bem tenso para que a devolução acontecesse o mais rápido possível, ou nunca mais os vereis.
Sim, o cromo era o original, a existência da imagem dependia do cromo.
Mas então chegou o digital: adorei as promessas desse anuncio. Assim que, na virada do século, cansado de cuidar de ar condicionado, fiz uma proposta de venda do meu arquivo analógico à Secretaria de Cultura do Amazonas. Negocio feito! Maravilhosa liberdade, vendi todas as câmeras analógica e mergulhei no estudo das novas técnicas. A venda do acervo permitiu a aquisição de uma Nikon D2x e de uma D200; eram as primeiras maravilhas tecnológicas da era digital, 12 Mpx de resolução, não precisava trocar de filme a cada 36 fotos, poderia disparar até 300 e ter sempre mais enquadramentos, num pequeno cartão reutilizável. E, a mais saborosa das vantagens: o arquivo caberia num HD e alguns backup estrategicamente distribuidos. Que maravilha! Eu voltava ao meu nomadismo congênito. Poderia sair da cidade e entrar (morar no mato).
Mais ainda, eu estava livre do maior vilão da minha carreira fotográfica: aquele ar frio, gelado e insuportável do quarto de trabalho, aquele ar que entrava em meus ossos e me condenava ao regime impiedoso dele, me privando por horas a fio do adorável mormaço amazônico.
Assim foi minha jornada analógica, entre o frio-seco do meu estúdio e o quente- úmido dos rios e das florestas.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
Líder espiritual
O pajé é o chefe espiritual das tribos indígenas; autoridade máxima; conhecedor dos encantamentos místicos utilizados para expulsar maus espíritos (cantos, rituais, medicamentos preparados com ervas, raízes, sementes etc.); um misto de sacerdote, médico, curandeiro e feiticeiro. Responsável pela introdução de algumas drogas na farmacopéia moderna. Capaz de manipular venenos, narcóticos, sedativos e estimulantes. No Festival de Parintins, durante a evolução do Bumbá, o Pajé é o índio feiticeiro, uma das figuras mais importantes da apresentação, que por meio da pajelança, conjunto de danças e invocação de espíritos, encontra a receita para a cura.
(Fonte: boibumba.com)
Legenda limitada (max 500 caracteres, resumo geral das narrativas, suporte sintético com revisão humana)
Produzida no Boi-bumbá, a foto do pajé com flash na segunda cortina criou efeito de movimento. A imagem nasceu num slide Fujichrome Velvia 50, revelado, fixado, montado e arquivado em ambiente refrigerado — eterna luta entre o estúdio o calor amazônico das expedições. O cromo era o original, e enviá-lo por correio era uma agonia. Com a chegada do digital, vendi o acervo analógico à SEC-AM, comprei uma Nikon D2x e me libertei do ar-condicionado que me roubava o mormaço da Amazônia. (486 caracteres).
Localidade da tomada
Bumbódromo - Parintins - Amazonas - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
1993
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | América Latina | arte | Boi-bumba | Brasil | celebração | CULTURA | cultura popular | eventos | Festival Folclórico de Parintins | folclore | pajé | Parintins | Tupinambarana
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
A palavra Boi-Bumbá é uma variação amazônica de Bumba-meu-Boi (Dicionário Priberam). Bumba é uma onomatopeia que imita o som da pancada do chifre do boi — ou seja, bumba significa algo como chifra ou dá uma pancada (Centro de Chado Urasenke do Brasil). O termo vem do verbo bumbar, que significa espancar ou sovar (Dicio - Dicionário Online). Assim, Bumba-meu-Boi ou Boi-Bumbá quereria dizer, de forma rústica e direta, chifra, meu boi ou bate, meu boi. No Norte do Brasil, principalmente no Amazonas e Pará, a manifestação passou a ser chamada de Boi-Bumbá, enquanto no Nordeste prevalece o nome Bumba-meu-Boi (Diégues Júnior, 1946).
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
O pajé é o intermediário entre os homens e as forças sobrenaturais; possui dons divinatórios e tem o poder de curar doenças com rezas, ervas medicinais e práticas mágicas. O pajé é uma autoridade respeitada em sua aldeia e desempenha um papel fundamental na manutenção da ordem social e cultural.
— RODRIGUES, Samuel; VALENTINI, Marisa. Saberes tradicionais indígenas: a figura do pajé na comunidade. Revista Cadernos de Campo, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 112-128, 2021.
No contexto das sociedades indígenas, a figura do pajé (ou xamã) transcende a mera função de curandeiro. Ele é o guardião da memória cósmica, o diplomata do invisível, aquele que transita entre as esferas humana e espiritual para restabelecer o equilíbrio que a quebra de tabus ou a ação de espíritos malévolos rompeu.
— ANDRADE, Marcelo da Silva. Xamanismo e Cosmologia na Amazônia Indígena. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 14, n. 1, p. 45-67, 2020.
O pajé atua como o principal mediador da cosmologia da comunidade, sendo o responsável por repassar os mitos de fundação e garantir que as novas gerações compreendam as regras de parentesco e as restrições rituais que mantêm o grupo coeso diante das pressões externas.
— LIMA, Ronaldo Sousa. Religião e resistência: o papel político das lideranças espirituais indígenas. Revista de Antropologia Social, Curitiba, v. 8, n. 3, p. 201-219, 2022.
A cura promovida pelo pajé é, antes de tudo, uma cura social e cosmológica. Ao identificar o causador invisível da enfermidade, o especialista retira o elemento exógeno que ameaça a integridade física do indivíduo e, por extensão, a estabilidade do coletivo.
— CASTRO, Heloísa Maria. Práticas de cura e o manejo de plantas medicinais entre os povos da floresta. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 16, n. 2, p. 315-332, 2021.
No Ritual, a cosmogonia, etiologia e a escatologia indígena são apresentadas numa recriação apoteótica, tornando o personagem Pajé o protagonista do universo indígena do Boi-Bumbá de Parintins.
— NAKANOME, Ericky da Silva; SILVA, Adan Renê Pereira da. O INDÍGENA NO IMAGINÁRIO ALEGÓRICO DOS BUMBÁS DE PARINTINS. Moringa Artes do Espetáculo, João Pessoa, v. 10, n. 1, p. 49-66, 2019.
Estas adaptações envolveram a incorporação de personagens da floresta, a modificação de alguns como o médico que foi substituído pelo pajé, a presença do negro deu lugar ao índio e a captura do matador só é possível com a ajuda de uma tribo indígena.
— SILVA, Camila Viana. O Boi-Bumbá: uma manifestação folclórica originária do Maranhão, trazida para a Amazônia. Revista do Pantheon UFRJ, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 15-32, 2023.
Esses cenários funcionam como molduras vivas para as diferentes sequências dramáticas que nelas se desenrolam – em especial Lenda Amazônica (uma lenda regional), Conjunto Folclórico (a lenda do boi) e Ritual (uma lenda indígena de morte e destruição) – em meio às quais dançam as tribos (grupos de dançarinos fantasiados de índios) e os personagens individualizados do Boi (boi, sinhazinha da fazenda, cunhã poranga, pajé).
— CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O RITUAL E A BRINCADEIRA: RIVALIDADE E AFEIÇÃO NO BUMBÁ DE PARINTINS, AMAZONAS. Mana, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 23-54, 2000.
Referências bibliográficas
— AMORIM, Siloé Soares de. PAJÉ, ENCANTADOS E PROMESSAS NOS ENTENDIMENTOS DE PRÁTICAS RELIGIOSAS INDÍGENAS EM ALAGOAS. _PARALELLUS Revista de Estudos de Religião - UNICAP_, Recife, v. 11, n. 26, p. 77-096, 2020.
— ANDRADE, Marcelo da Silva. Xamanismo e Cosmologia na Amazônia Indígena. _Espaço Ameríndio_, Porto Alegre, v. 14, n. 1, p. 45-67, 2020.
— CASTRO, Heloísa Maria. Práticas de cura e o manejo de plantas medicinais entre os povos da floresta. _Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi_, Belém, v. 16, n. 2, p. 315-332, 2021.
— CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O RITUAL E A BRINCADEIRA: RIVALIDADE E AFEIÇÃO NO BUMBÁ DE PARINTINS, AMAZONAS. _Mana_, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 23-54, 2000.
— COSTA, S. R. R.; COSTA, J. E. M. Bois-bumbás de Parintins: síntese metafórica da realidade? _Revista de Administração Pública_, Rio de Janeiro, v. 43, n. 6, p. 1475-1494, 2009.
— LIMA, Ronaldo Sousa. Religião e resistência: o papel político das lideranças espirituais indígenas. _Revista de Antropologia Social_, Curitiba, v. 8, n. 3, p. 201-219, 2022.
— NAKANOME, Ericky da Silva; SILVA, Adan Renê Pereira da. O INDÍGENA NO IMAGINÁRIO ALEGÓRICO DOS BUMBÁS DE PARINTINS. _Moringa Artes do Espetáculo_, João Pessoa, v. 10, n. 1, p. 49-66, 2019.
— RODRIGUES, Samuel; VALENTINI, Marisa. Saberes tradicionais indígenas: a figura do pajé na comunidade. _Revista Cadernos de Campo_, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 112-128, 2021.
— SILVA, Camila Viana. O Boi-Bumbá: uma manifestação folclórica originária do Maranhão, trazida para a Amazônia. _Revista do Pantheon UFRJ_, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 15-32, 2023.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
Filme 35mm
Captura da Imagem
film
Dimenções e tamanho do original
5292px x 3565px - 19.5MB
Capa
P21_492.jpg
Anexos
A83_5425.jpg - A83_5420.jpg - A83_5416.jpg - A82_5158.jpg - A82_5156.jpg - A82_5154.jpg
Identificador uma palavra
Boi-bumbá
Pessoas na foto
performer
alt_text
P21_492 - Pajelanças - Leonide Principe
Resumo dos metadados
P21_492 - Leonide Principe
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 80-200mm f2.8 - Diapositive Film Fujichrome Provia 100 - Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene Synchronized on second curtain flash
Original file size: 5292px x 3565px (19.5MB)
Location Taken: Bumbódromo - Parintins - Amazonas - Brazil
Persons shown: performer
Coordinates: 2.62155° S - 56.73343° W
Date Taken: 1993
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
Licença de uso
Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
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