Themis tropical
Antes da reforma D32_0854
Antes da reforma reforma D32_0854
O palácio da Justiça D32_0854
Data de atualização
10 de June de 2026
Código da Fotografia
D32_0854
Título da Foto
Themis tropical
Legenda minimalista
D32_0854 Themis tropical
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Bem no centro do enquadramento a figura inteira da deusa da Justiça, Têmis, está sentada no topo do Palácio da Justica, completamente reformado em 2006. Na data da foto, em 2013, a estatua se apresentava bem pintada, de branco, ao contrario das fotos de 2011 anexadas. Irreverente, um urubu-de-cabeça-preta (_Coragyps atratus_) está empoleirado na cabeça da deusa sem venda, apoiada na espada, com a balança meio bagunçada e segurada desplicientemente ao longo das pernas, a cabeça levemente baixa e olhando para esquerda. Seria por causa da _leseira baré_?
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Uma Têmis única no planeta
Em Manaus, logo atrás do Teatro Amazonas, uma humanizada Têmis domina o antigo Palácio da Justiça, que agora abriga um Centro Cultural. Deusa greco-romana da justiça, da lei e da ordem, a filha de Urano e Gaia parece estar completamente fora da caixinha. Por exemplo, a Têmis da Praça dos três Poderes em Brasília está sentada, cabeça ereta, vendada e com a espada em repouso nas pernas: simboliza um país em um momento de paz e estabilidade pronta para ser usada pelo sistema judicial, apenas quando necessário.
Quanto à Têmis manauara, talvez, foi atacada pela leseira baré, como os moradores costumam dizer de alguém que se comporta de maneira ingênua e comete besteiras, não muito graves. Tudo indica que nem ela, um ser divino, originária da Grecia Antiga, resistiu ao mormaço, ao clima quente, úmido e abafado da capital amazonense: sentou-se, estafada, se apoiou na espada, abaixou a balança, toda embaralhada, a cabeça inclinou-se para esquerda, levemente para baixo e, até a venda que cobria seus olhos, deve estar em algum lugar, no chão.
Até um urubu, irreverente, pousou em sua cabeça.
Procurei muito o artista-escultor, para descobrir as motivações secretas dele, se há algumas. Certamente, há muitos mistérios sobre a origem da estatua: há quem diga que foi 'inventada' na Italia, mas duvido que os italianos tenham se documentado sobre as características climáticas da cidade de Manaus. Outros dizem que seria autoria de Enrico Quattrini, artista plástico italiano ativo em Manaus no final do século XIX, responsável por monumentos como a estátua de Tenreiro Aranha e o Monumento à Abertura dos Portos. Embora tenha produzido obras significativas para a cidade no mesmo período da construção do Palácio da Justiça (1900), não há documentação que o atribua como autor da estátua da Justiça no topo do edifício.
Há também a hipótese que o arquiteto francês Charles Peyroton, o mesmo que teria trabalhado no Teatro Amazonas, poderia ter assumido:
Em janeiro de 1898, o governador do Amazonas, Fileto Pires Ferreira, ao justificar em seu relatório oficial a contratação de Peyroton para reformular o projeto (que antes era conduzido de forma considerada 'fria' e puramente geométrica pelos construtores ingleses), declarou sobre o novo direcionamento do Palácio da Justiça:
— O projeto primitivo, conquanto recomendável pela simplicidade das linhas e sobriedade de ornamentos, carecia, entretanto, da elegância e majestade que devem caracterizar um edifício monumental dessa ordem. (...) As modificações introduzidas na fachada principal (...) vieram dar-lhe o aspecto imponente e severo que convém ao Palácio onde se administra a Justiça.
A nossa querida Têmis poderia ter entrado nessa empreitada. Mas, a parte esses detalhes bastante obscuros, permanece o debate que surge entre uma posição crítica e outra favorável, sobre essa polemica concepção artística, talvez única no planeta. O lado crítico da obra vê olhos abertos, balança inclinada e espada-apoio como provas de parcialidade, cansaço e justiça ineficaz.
Já a visão humanizada mais tolerante interpreta o olhar como atenção à realidade social e a espada-apoio como uso contido da força, um momento de reflexão antes do julgamento. A Têmis de Manaus é uma obra-prima, pois ao não usar a venda, ela assume o risco de ser julgada pela história. Ela não finge que todos são iguais perante a lei em um mundo desigual: ela senta, olha para as contradições da Belle Epoque, inclina a cabeça, deixa cair a balança e carrega o peso de uma justiça que tenta ser humana, mas está inevitavelmente presa às amarras do seu tempo.
Nessa segunda perspectiva a própria leseira baré seria uma extraordinária sensibilidade de compreender as peculiaridades regionais.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
No contexto do Palácio
Entre as fotos em anexo há duas que ilustram o monumento em 2011, ainda cinzento e castigado pelo tempo, porém a foto da capa a devolve ao público branca e bem polida. Outra foto de 2013 mostra a estatua no contexto do conjunto arquitetônico, já completatamente reformato. No Ciclo da Borracha (c. 1870-1920) a riqueza gerada pela seiva das seringueiras financiou obras monumentais como o Teatro Amazonas (1896) e o Palácio da Justiça (1900).
O estilo arquitetônico predominante entre fins do século XIX e início do XX era caracterizado pela combinação eclética de elementos de diferentes tradições históricas: neoclássico, renascentista, barroco, gótico. Na Amazônia da Belle Époque, o ecletismo foi adotado pelas elites como símbolo de sofisticação e modernidade. O Palácio da Justiça de Manaus exemplifica esse estilo, mescolando colunas clássicas, frontões renascentistas e ornamentação barroca em uma composição harmoniosa.
Legenda limitada (max 500 caracteres, resumo geral das narrativas, suporte sintético com revisão humana)
A Têmis manauara, talvez, foi atacada pela leseira baré, como os moradores costumam dizer de alguém que se comporta de maneira ingênua e comete besteiras, não muito graves. Tudo indica que nem ela, um ser divino, resistiu ao mormaço, o clima quente, úmido e abafado da capital amazonense: sentou-se, estafada, se apoiou na espada, abaixou a balança, toda embaralhada, a cabeça inclinou-se para esquerda, levemente para baixo e, até a venda que cobria seus olhos, deve estar em algum lugar, no chão.
Até o urubu, irreverente, pousou em sua cabeça.
Localidade da tomada
Palácio da Justiça - Manaus - Amazonas - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
2013-10-12 08:14:53
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | América Latina | animais | arquitetura | aves | Brasil | Cathartidae | Coragyps atratus | CULTURA | Estatua da Justica | FAUNA | Manaos | Manaus | monumentos | PAISAGENS | Palácio da Justiça | passaros | Reino Animal | Thémis | urubu-de-cabeça-preta | urubu-preto | vista urbana | vistas urbanas
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
O termo é uma variedade linguística regional que combina leseira (do português leso, significando ingênuo, abestalhado) com baré em referência ao povo indígena da região ou, coloquialmente, ao caboclo amazonense.
Descrição
Na Amazônia, o mormaço é caracterizado como um clima quente, úmido e abafado que, geralmente, ocorre durante o período de transição climática, quando o verão astronômico (período chuvoso) dá lugar ao verão (mais seco).
Segundo a geógrafa Gladis Silva, essa condição aumenta a temperatura e deixa o tempo mais pesado, podendo variar em intensidade e duração, ocorrendo por apenas algumas horas ou por vários dias.
O desconforto térmico pode provocar dor de cabeça, fadiga, irritação nas vias aéreas e má qualidade do sono, desidratação e cansaço excessivo, mesmo em pessoas saudáveis, devido à dificuldade de dissipação do calor pelo suor.
Descrição
A Belle Époque Amazônica (1871-1914) foi sustentada pelo ciclo da borracha, transformando Belém e Manaus em Paris dos Trópicos. Luz elétrica, bondes, teatros monumentais e arquitetura europeia simbolizavam a modernidade. Enquanto a elite importava luxo da França, os seringueiros viviam isolados na floresta, submetidos ao sistema de aviamento: endividamento perpétuo nos barracões, trabalho exaustivo e controle quase servil. O declínio começou em 1876, quando Henry Wickham contrabandeou 70 mil sementes de Hevea brasiliensis para a Malásia. A produção asiática, mais barata e em larga escala, quebrou o monopólio amazônico. O legado é um patrimônio arquitetônico singular, testemunho de uma euforia que não incluiu justiça social nem desenvolvimento sustentável.
Descrição
O Ciclo da Borracha (1879-1912) estruturou uma economia extrativista de exportação na Amazônia, baseada no monopólio da Hevea brasiliensis. O financiamento ocorria pelo sistema de aviamento: capital adiantado por casas aviadoras em troca de látex, gerando endividamento crônico dos seringueiros e concentração de riqueza nas elites. A demanda industrial global sustentou preços altos até 1910, quando sementes contrabandeadas por Henry Wickham em 1876 permitiram plantações sistemáticas na Malásia e Sri Lanka. A produção asiática, mais barata e escalável, quebrou o monopólio amazônico e provocou colapso nos preços. A retomada na Segunda Guerra (Batalha da Borracha) foi emergencial e estatal, sem alterar a dependência externa. O legado é uma economia volátil, marcada por ciclos de boom e colapso, sem diversificação produtiva nem retenção local de valor.
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
A estátua da deusa Themis no topo do Palácio da Justiça representa a justiça como lei eterna e ordem divina na tradição greco-romana. Diferente da iconografia tradicional que mostra a Justiça de olhos vendados, a versão manauara apresenta a deusa com os olhos abertos, segurando balança e espada. A escultura em cimento, modelada provavelmente em 1898, harmoniza com a fachada eclética do prédio e constitui um dos marcos visuais mais reconhecíveis do patrimônio arquitetônico de Manaus.
— MANAUS MEMÓRIA E PATRIMÔNIO. _Centro Cultural Palácio da Justiça_.
O Palácio da Justiça foi construído no governo Eduardo Ribeiro (1892-1896) e inaugurado em 21 de abril de 1900, integrando um conjunto de obras monumentais de modernização de Manaus durante o ciclo da borracha. Sua fachada foi projetada pelo arquiteto francês Charles Pyrouton, e no alto do prédio encontra-se uma estátua da deusa Themis, que personifica a justiça na cultura greco-romana. O edifício possui portões de ferro fundido importados de Glasgow, Escócia, e calçada e escadarias em pedra de Liós, de Lisboa.
— AMAZONAS E MAIS. _Palácio da Justiça, memória do Judiciário e ícone da Belle Époque_. Manaus, 2020.
O Palácio da Justiça tem estilo eclético e mescla o renascentista, neoclássico e o barroco. O edifício é composto por cinco corpos, sendo o central e os extremos um pouco mais proeminentes. O corpo central é formado por um pórtico com quatro colunas e duas pilastras em cada um dos andares, sendo as do primeiro pavimento de ordem toscana e as do segundo de ordem compósita. No topo do prédio existe a representação da deusa Themis, símbolo greco-romano da justiça e lei eterna.
— MESQUITA, Otoni Moreira de. _Manaus: história e arquitetura (1669-1915)_. 4. ed. Manaus: Editora Valer, 2019.
O Palácio da Justiça talvez seja a construção mais bem decorada do centro histórico de Manaus, rica em estuques, pinturas marmorizadas, relevos decorativos, elementos de ferro fundido, mascarões e cariátides. O teto do hall é revestido em estuques com paredes em imitação de mármore. A imponente escada principal tem guarda-corpo metálico, com arcos dourados e seis hermas ou cariátides, importadas de Lisboa. O prédio é ladeado por um muro de Arenito Manaus, o mesmo usado nos muros do Teatro Amazonas, sendo um dos poucos materiais da região usados na obra.
— BRAGA, Robério. _Manaus na palma da mão_. 1. ed. Manaus: Reggo Edições, 2014.
Referências bibliográficas
— AMAZONAS E MAIS. _Palácio da Justiça, memória do Judiciário e ícone da Belle Époque_. Manaus: Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas, 2020. Disponível em: https://amazonasemais.com.br.
— MESQUITA, Otoni Moreira de. _Manaus: história e arquitetura (1669-1915)_. 4. ed. Manaus: Editora Valer, 2019. 352 p.
— BRAGA, Robério. _Manaus na palma da mão_. 1. ed. Manaus: Reggo Edições, 2014. 288 p.
— WEINSTEIN, Barbara. _A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920)_. São Paulo: Hucitec; EDUSP, 1993. 412 p.
— BENCHIMOL, Samuel. _Manaus: o crescimento de uma cidade no vale amazônico_. Manaus: Editora Valer, 2009. 256 p.
— LOBATO, Silvina. _A Belle Époque em Manaus: arquitetura e memória_. Manaus: EDUA, 2010. 198 p.
— IPHAM. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas. _Dossiê de Tombamento: Palácio da Justiça_. Manaus: IPHAM, 1980.
— MANAUS MEMÓRIA E PATRIMÔNIO. _Centro Cultural Palácio da Justiça_. Manaus, 2023. Disponível em: https://manausepatrimonio.com.br/centro-cultural-palacio-da-justica/.
— CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. _Dicionário de símbolos_. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. Verbete: Justiça, Têmis.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
DSLR (reflex digital)
Captura da Imagem
digital
Dimenções e tamanho do original
4948px x 3280px - 12.0MB
Capa
D32_0854.jpg
Anexos
E04_0598.jpg - E60_5230.jpg - E04_0599.jpg
Identificador uma palavra
Manaus
Pessoas na foto
none
alt_text
D32_0854 - Themis tropical - Leonide Principe
Resumo dos metadados
D32_0854 - Leonide Principe
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