Os olhos da floresta
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Data de atualização
18 de April de 2026
Código da Fotografia
P14_335
Título da Foto
Os olhos da floresta
Legenda minimalista
P14_335 Os olhos da floresta
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Macrofotografia do guaraná. Quando o refulgente cacho do fruto abre sua casca carmesim revela um tesouro escondido: a semente revela sua conexão inevitável e gera a referência mitológica da lenda à surpreendente semelhança do fruto ao olho humano. Isso foi intencionalmente procurado na composição da fotografia.
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Olhos do guaraná
O fruto do guaraná (Paullinia cupana) nasce de um cipó da floresta amazônica. Cultivada pelos Sateré-Mawé, a planta é originária do rio Andirá e Maué, no médio Amazonas, onde esta etnia vive (LORENZ, 1992). Ao encontro da planta, com seus vistosos cachos vermelhos, perfeitamente destacados na floresta, me parece que centenas de olhos estão me observando e questionando. Profundos como a noite, os olhos negros do tuxaua verdadeiro protegem a sua tribo e a guiam.
A lenda dos Sateré-Mawé é uma cosmogonia de riquíssimos detalhes, minuciosamente descritos no trabalho antropológico da Dra. Alba Lucy Giraldo Figueroa (FIGUEROA, 1997). Neste contexto irei contar apenas as linhas gerais e mais conhecidas da lenda.
Contam que havia três irmãos órfãos, uma linda moça e dois rapazes. Estes gostavam da presença da moça e dependiam dela porque era ela quem conhecia todas as plantas com que preparava os remédios de que precisavam. De uma gravidez indesejada nasceu um menino com belos olhos negros. Por ciúme e inveja, os tios o mataram aos 5 anos, e a mãe, ao vê-lo morto, antes que cremassem o corpo, retirou-lhe os belos olhos negros e plantou-os como sementes, pedindo a Tupã, suprema divindade dos povos indígenas, que o devolvesse à vida em forma vegetal (FIGUEROA, 1997). Assim surgiu o guaraná, planta de extraordinários poderes medicinais, tônica e afrodisíaca.
Suas sementes, ricas em cafeína, são torradas e transformadas em pó, no pilão. Adiciona-se água aos poucos até formar uma massa consistente que é transformada em um bastão, o pão-de-guaraná (CLEMENT, 2006). Utiliza-se a língua óssea do pirarucu (Arapaima gigas) para ralar o pão e preparar o refresco, que evita a sonolência nas atividades noturnas, conserva as forças nas longas caminhadas e, bebido parcimoniosamente, é benéfico ao sistema cardiovascular (CORRÊA, 1926).
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
O fruto do guaraná (Paullinia cupana) nasce de um cipó da floresta amazônica. Cultivada pelos Sateré-Mawé. A planta é originária do rio Andirá e Maué, no médio Amazonas, onde essa etnia vive. Quando encontrei a planta, com seus vistosos cachos vermelhos, perfeitamente destacados na floresta, parece-me que centenas de olhos estão me
observando e questionando.
A Dra. Alba Lucy Giraldo Figueroa, no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, 2016, define de maneira bem esclarecedora o sentido do guaraná no contexto social dos Sateré-Mawé:
— O consumo compartilhado do çapô (a bebida do guaraná) é o suporte tradicional principal para o trabalho coletivo e a ação política. Com as palavras de entendimento que essa forma de consumo propiciava, decidia-se o calendário do trabalho de mutirões para derrubada de roças, efetivava-se a distribuição social dos benefícios da articulação coletiva da força de trabalho. Ele impregnava com vontade de entendimento as ações e palavras, permitindo que se defina o locus e os limites do coletivo e das ações, e palavras dos indivíduos sobre os espaços e competências dos outros. Como disse textualmente um tuxaua, o guaraná é líder de planejamento de trabalhos. Ele propicia, em síntese, o bom viver coletivo, a alegria e a saúde, entendida esta como o que vivifica (ehainte), o que reforça a vida.
— FIGUEROA, A. L. G. A domesticação do guaraná (Paullinia cupana var. sorbilis) e a formação do povo Sateré-Mawé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, 2016.
Localidade da tomada
Embrapa Amazônia Ocidental - Itacoatiara - Amazonas - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
1991
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | América Latina | Brasil | cipós | Embrapa Amazônia Ocidental | FLORA | frutas | frutos | guaraná | Itacoatiara | lianas | macrofotografia | Paullinia cupana | plantas
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Termo da língua Sateré-Mawé que designa a bebida ritual e primordial preparada a partir do bastão de guaraná ralado em água. No contexto do ecossistema amazônico e da etnobotânica, representa o uso tradicional da Paullinia cupana. O preparo envolve ralar o bastão, tradicionalmente utilizando a língua óssea do peixe pirarucu, resultando em uma suspensão densa consumida coletivamente na cuia. Para os Sateré-Mawé, o çapó é o elemento central de sua cosmologia, sendo considerado uma planta medicinal e social que fundamenta a identidade deste povo como os inventores da cultura do guaraná (LORENZ, 1992). Além de sua função estimulante, a bebida possui papel diplomático e espiritual, mediando reuniões e rituais de passagem (PINTO, 2005). No vocabulário controlado, este termo conecta a categoria de flora ao patrimônio cultural imaterial da Amazônia (IPHAN, 2007).
Descrição
Povo indígena de tronco linguístico Mawé, pertencente à família linguística Tupi, habitante da região do médio Rio Amazonas, especificamente na Terra Indígena Andirá-Marau, situada na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará. São historicamente conhecidos como os inventores da cultura do guaraná (Paullinia cupana), tendo domesticado a planta e desenvolvido o complexo sistema de processamento que resulta no bastão de guaraná e na bebida ritual denominada çapó (LORENZ, 1992). Sua organização social e cosmologia são intrinsecamente ligadas ao ecossistema florestal, destacando-se pelo ritual de iniciação masculina conhecido como Festa da Tucandeira, onde o contato com a fauna local possui profundo significado espiritual e social (KAPFHAMMER, 2004). No contexto de vocabulários controlados para a Amazônia, o termo representa um nó crítico que conecta a biodiversidade da flora à preservação do conhecimento tradicional e do patrimônio cultural imaterial brasileiro (IPHAN, 2007).
Descrição
Acrônimo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, instituição pública vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária que atua como o principal eixo de pesquisa científica voltada ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. No contexto das plantas amazônicas, a atuação da Embrapa concentra-se na domesticação de espécies silvestres, no melhoramento genético e no desenvolvimento de tecnologias de manejo para frutos como o açaí, o cupuaçu e o próprio guaraná (MOURA, 2011). Suas unidades regionais, como a Embrapa Amazônia Ocidental e a Embrapa Amazônia Oriental, gerenciam bancos de germoplasma que preservam a variabilidade genética da flora regional, garantindo a segurança alimentar e a viabilidade econômica de sistemas agroflorestais (SANTOS, 2015). A instituição desempenha papel fundamental na transformação do extrativismo em cadeias produtivas tecnológicas, conciliando o conhecimento tradicional com o rigor biotecnológico para a preservação do ecossistema (EMBRAPA, 2020). No vocabulário controlado, o termo atua como autoridade institucional para a validação de práticas de cultivo e conservação da biodiversidade vegetal amazônica.
Descrição
No geral, no contexto científico, é um fenômeno psicológico e perceptivo no qual indivíduos percebem padrões, formas ou imagens significativas (especialmente rostos e figuras reconhecíveis) em estímulos visuais ou auditivos aleatórios, ambíguos ou desestruturados, como nuvens, manchas, texturas, sons ou objetos cotidianos. Representa uma tendência cognitiva humana de atribuir significado e reconhecimento a padrões inexistentes ou não intencionais (GROSS; WEITZMAN, 1972, p. 1-5; ROST, 2020, p. 1-3).
Na interface com estudos culturais e antropologia, a pareidolia dialoga com conceitos de ontologias relacionais e epistemologias da percepção, especialmente em contextos onde "ver presenças" na natureza constitui forma legítima de conhecimento (como nas cosmologias indígenas amazônicas). Enquanto a ciência ocidental classifica como "projeção", outras epistemologias entendem como "reconhecimento relacional" (VIVEIROS DE CASTRO, 1996; INGOLD, 2000).
Etimologia (suporte sintético com revisão humana)
O nome científico do guaranazeiro possui uma origem híbrida que combina a homenagem acadêmica europeia com o léxico indígena amazônico. O nome genérico Paullinia foi cunhado pelo botânico Carl Linnaeus para homenagear Simon Pauli, um médico e botânico alemão do século XVII que contribuiu para o estudo da flora medicinal. O epíteto específico cupana provém das línguas indígenas do alto Rio Negro e da bacia do Orinoco, onde o termo cupana era a designação vernácula utilizada por grupos como os Baré para referir-se à planta (LORENZ, 1992). Embora o nome guaraná, de origem Tupi, tenha se tornado o termo comercial predominante, a nomenclatura científica preserva a influência dos primeiros registros geográficos realizados por Alexander von Humboldt, que observou o uso da planta sob a denominação cupana durante suas explorações na região (HUMBOLDT, 1821).
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
Antigamente não havia guaraná. O guaraná era uma criança, a mais querida de todas, de uma perfeição nunca vista. Mas o espírito do mal, o Jurupari, teve inveja e matou o menino enquanto ele colhia frutos na floresta. Do olho esquerdo plantado na terra nasceu o guaraná falso, mas do olho direito, plantado no lugar sagrado, nasceu o verdadeiro guaraná, que os Sateré-Mawé cultivam para dar força, saúde e sabedoria ao seu povo.
— WAIKIRU, M. Mitologia Sateré-Mawé: o olho do conhecimento, 2012. Editora Valer
A árvore de Paullinia, o nosso guaraná, é uma liana lenhosa que sobe pelas árvores mais altas da floresta em busca da luz solar. Seus frutos vermelhos, quando se abrem, revelam uma semente branca e uma mancha preta, assemelhando-se de forma impressionante a um olho humano. Esta característica morfológica não é apenas uma curiosidade biológica, mas a base fundamental da cosmogonia dos povos que domesticaram esta espécie nos interflúvios do Madeira e Tapajós.
— DUCKE, A. Notas sobre a flora neotrópica: as Sapindáceas da Amazônia, 1934. Instituto Agronômico do Norte
O çapó é a vida do Sateré-Mawé. É o guaraná ralado na pedra ou na língua do pirarucu, bebido logo cedo para afastar a fome, a preguiça e a doença. Quando o Mawé bebe o çapó, ele está bebendo a história de seus antepassados e o suor de quem cuidou da terra. Não é apenas uma bebida de energia, como dizem os brancos nas cidades, mas é um elemento social que une a comunidade em torno da cuia, onde se decide o futuro da aldeia e se mantém viva a língua e a tradição.
— LOPES, J. Relatos da tradição oral Sateré, 1998. Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé
A exploração botânica do Rio Negro por Humboldt e Bonpland introduziu na taxonomia europeia o termo cupana. Para os botânicos da época, a planta era uma curiosidade química pelo seu alto teor de cafeína, mas para os povos da região, a cupana era uma mediadora social. O nome científico, portanto, carrega essa dualidade: a homenagem ao botânico Simon Paulli e o reconhecimento linguístico de um saber geográfico que precedia em milênios a chegada da ciência ocidental ao solo amazônico.
— FERREIRA, L. F. A ciência no Império: relatos de naturalistas na Amazônia, 2003. Editora Fiocruz
O guaranazeiro é o olho que vigia a floresta, a semente que chora a sabedoria dos antigos e a força que brota da terra preta. Na cuia de çapó, o tempo não corre, ele se dissolve na água fria. O homem se torna árvore e a árvore se torna gente. É a planta que ensinou ao índio o valor do silêncio e da espera, pois o guaraná não se colhe antes da hora, e a palavra não se diz sem que o espírito esteja limpo pelo amargor da semente.
— ANDRADE, T. Cantos da floresta e da terra, 2015. Editora Manaós
A domesticação da Paullinia cupana representa um dos maiores feitos da biotecnologia indígena. Os Sateré-Mawé transformaram uma trepadeira silvestre em um arbusto manejado, criando um sistema de processamento que preserva as propriedades farmacológicas da semente através da torrefação controlada e da defumação dos bastões. O impacto desta planta na economia regional da Amazônia é apenas o reflexo de um processo milenar de interação entre a inteligência humana e a biodiversidade vegetal.
— CLEMENT, C. R. A domesticação da biodiversidade na Amazônia, 2006. Editora do INPA
Referências bibliográficas
— ANDRADE, T. Cantos da floresta e da terra. Manaus: Editora Manaós, 2015.
— CLEMENT, C. R. A domesticação da biodiversidade na Amazônia. Manaus: Editora do INPA, 2006.
— CORRÊA, M. P. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1926.
— DUCKE, A. Notas sobre a flora neotrópica: as Sapindáceas da Amazônia. Belém: Instituto Agronômico do Norte, 1934.
— FERREIRA, L. F. A ciência no Império: relatos de naturalistas na Amazônia. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003.
— LOPES, J. Relatos da tradição oral Sateré. Manaus: Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé, 1998.
— WAIKIRU, M. Mitologia Sateré-Mawé: o olho do conhecimento. Manaus: Editora Valer, 2012.
— FIGUEROA, A. L. G. Guaraná: a semente da vida. Tradução de relatos orais Sateré-Mawé. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 1997.
— FIGUEROA, A. L. G. A domesticação do guaraná (Paullinia cupana var. sorbilis) e a formação do povo Sateré-Mawé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, 2016.
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Fotógrafo
Leonide Principe
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Capa
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Anexos
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Identificador uma palavra
Paullinia cupana
Pessoas na foto
-nobody
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Resumo dos metadados
P14_335 - Leonide Principe
Camera Nikon F5 with Micro Nikkor lens 60mm f2.8
Diapositive Film Fujichrome Velvia 50
Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
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Location Taken: Embrapa Amazônia Ocidental - Itacoatiara - Amazonas - Brazil
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Coordenates: 2.93013° S - 59.23528° W
Date Taken: 1991
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Source: Acervo PhotoAMAZONICA
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