Cumplicidade da onça
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Data de atualização
20 de May de 2026
Código da Fotografia
P05_098
Título da Foto
Cumplicidade da onça
Legenda minimalista
P05_098 Cumplicidade da onça
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
A cabeça da onça aparece inteira na foto e vindo na direção do fotógrafo, boca aberta com os dentes a vista, numa atitude agressiva.
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Onça-pintada ou, no tupi, iauaretê significa onça-verdadeira (Panthera onca).
Fotografia realizada no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva), onde os militares criam onças como mascote. Eu estava com autorização para fotografar o felino, do jeito que eu achasse melhor: na floresta e livre. A onça chegou com um soldado segurando ela pela coleira, havia mais uma meia dúzia de soldados, presupostamente para manter minha segurança. Eu perguntei: pode soltar o gato? O soldado olhou para o oficial que estava do meu lado, o qual acenou positivamente. Num primeiro momento o gato ficou tranquilo, procurou um canto e deitou, observando o movimento dos humano e eu era apenas um entre eles. Perguntei para o treinador se tinha como fazer a onça levantar e deixar ela andando na trilha. Então ele fez para pegar no colar, mas a onça não gostou e reclamou. Apesar de eu estar do lado, preferi pensar que a reclamação não foi comigo e, com esta suposição ali fiquei e disparei o flash. Essa foi a foto de capa e o felino se acalmou de novo. Eu fiquei bem satisfeito e não só pela fotografia, senti uma certa cumplicidade da onça-pintada… talvez a onça-pintada viu algo mágico naquele clarão de luz, certo é que o clarão me escondeu na hora certa.
Pelo bom senso popular não se cutuca onça de vara curta. A onça é um ser desconhecido. Na biologia ela foi classificada, porém o estudo e a descrição dos comportamentos é bastante rara. Igualmente raros são os seres humanos que tem relação direta com esse animal. O biólogo é o embaixador mais qualificado entre os humanos, digamos assim o relacionamento oficial. Há um fotógrafo ou outro que assume a tarefa de mostrar a imagem ao grande público. Há também o guia turístico que orgulha-se, entre seus produtos, da observação da onça. Há o criador de gado que vive próximo à florestas, ele está sempre pronto para eliminação da maior ameaça à sua criação. Um tempo atrás havia o caçador que abastecia a alta burguesia de luxuosas e macabras vestimentas feitas com a pele do felino. Esse caçador remanescente é aquele que atende ao pedido do fazendeiro quando a onça ataca a fazenda.
O que ainda não há é uma consciência coletiva sobre a importância de preservação dos felinos. É certo que onde a ocupação humana subtrai florestais aos seus moradores, o faz de uma maneira tão interesseira e unilateral que não há espaço para as necessidades dos moradores originais. A consciência coletiva é o primeiro passo: inicia com a produção de conhecimento e a presença efetiva de especialistas nas áreas de conflito. Essa presença trabalha lado a lado com os fazendeiros, garantindo a segurança dos moradores, ressarcindo o prejuízo em caso de ataques e monitorando a área. Onças mais ousadas podem ser removidas da fronteira humana para grandes florestas. Certamente, com base no conhecimento e na ecoalfabetização, a consciência coletiva poderá construir a maneira de preservar esses felinos altamente ameaçados.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
Superpredador
Não tem tratamento ou efeito especial algum nos olhos do felino, trata-se apenas do reflexo do flash.
A onça-pintada (Panthera onca) é um superpredador e pode predar, teoricamente, qualquer vertebrado terrestre ou semi-aquático nas Américas, Central e do Sul, com preferência por presas maiores, caçando em espreita, formando emboscadas e perseguindo pouco a presa. O felino anda de forma lenta, ouvindo e espreitando a presa, antes de atacá-la por cima, através de algum ponto cego da presa, com um salto rápido e sempre no contra-vento para que a presa não possa cheirá-la: as habilidades de espreita e emboscada dessa espécie são consideradas inigualáveis tanto por povos indígenas quanto por pesquisadores.
Localidade da tomada
CIGS - Manaus - Amazonas - Brasil
Data e hora da tomada fotográfica
1994
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | América Latina | animais | Brasil | CIGS | FAUNA | Felinae | felinos | floresta ombrófila | floresta pluvial | floresta tropical úmida | iauaretê | mamíferos | Manaos | Manaus | onça-pintada | PAISAGENS | Panthera onca | Reino Animal | sub-bosque
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Termo onomatopaico e técnico utilizado para designar a vocalização característica dos grandes felinos do gênero Panthera, especialmente a onça-pintada (Panthera onca). Conforme apontado nos manuais de manejo de fauna do ICMBio (MORATO, 2008), diferente do rugido longo e contínuo do leão, o esturro da onça é uma sequência de fôlegos curtos, roucos e graves, emitidos em forte expiração e inspiração sucessivas, assemelhando-se ao som de uma tosse profunda ou ao ato de serrar madeira. Essa vocalização, cuja análise acústica e espacial é fundamental para o monitoramento populacional não invasivo em campo (CULLEN JR. et al., 2001), serve primariamente para a comunicação de longo alcance, delimitação de território e atração de parceiros durante o período reprodutivo.
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
A onça não caminha sobre a terra, ela flutua como uma miragem feita de sombra e sol. Sua marcha silenciosa é uma coreografia litúrgica, um ritual de adoração ao silêncio que os homens urbanos destruíram. Há mais poesia no erguer de sua pata do que em todas as nossas bibliotecas. Ela é a própria literatura viva da selva, um poema escrito com garras e dentes, cujas estrofes são impressas na lama dos rios. Quando uma onça encara o horizonte, ela está lendo as páginas invisíveis de um livro que a humanidade desapreceu a ler no dia em que se isolou entre paredes de pedra.
— MEIRELES, Cecília, Crônicas da Terra e do Ar, 1952, Editora Nova Fronteira
No fundo do Mato Grosso, onde a luz do sol se perde em fios de ouro e a umidade cheira a terra velha, vive a mãe-da-onça. É um espírito sem forma definida, que assume os traços do grande felino pintado para punir o caçador ganancioso, aquele que mata por vaidade e não por fome. O bicho surge do nada, como uma fumaça amarela entre os troncos, e seus olhos brilham com a luz das almas perdidas na floresta. Quem olha fixamente para o centro dessas pupilas mágicas perde o juízo para sempre, esquecendo o próprio nome e passando a vagar como bicho sob o comando da rainha das matas.
— BARROSO, Gustavo, O Sertão e o Mundo dos Encantados, 1924, Livraria Castilho
A onça-pintada é a guardiã dos portais da noite e o símbolo máximo da transmutação energética na floresta neotropical. Nas tradições esotéricas e no xamanismo ancestral, o jaguar representa a capacidade de caminhar sem medo pelos túneis da nossa própria escuridão, devorando as ilusões do ego para que a verdadeira sabedoria possa nascer. Suas manchas não são meras marcas na pelagem, mas um mapa astral desenhado pelo Grande Espírito, onde cada ponto escuro representa uma estrela de uma constelação esquecida que governa os mistérios da vida e da morte.
— ANDRADE, Mário de, O Banquete dos Deuses e os Símbolos da Noite, 1943, Livraria Martins Editora
Era uma onça enorme, com duas grandes manchas negras acima dos olhos que pareciam outro par de pupilas a fitar o infinito. O povo do sertão dizia que aquela não era criatura de Deus, mas um bicho encantado, corpo de feitiço que nenhuma bala de chumbo conseguia furar. Curandeiros contavam que, nas noites de lua cheia, o felino se sentava nas encruzilhadas para escutar os segredos do vento, e que seu esturro, longe de ser um simples rugido de caça, era uma oração antiga dedicada aos deuses esquecidos que habitavam as entranhas escuras da mata virgem.
— QUEIROZ, Rachel de, O Quinze e Outras Histórias do Sertão, 1930, José Olympio Editora
O pajé não teme a morte porque ele sabe que sua alma pode caminhar na pele do jaguar. Quando a noite cobre o teto da floresta e os fogos se apagam, o homem de conhecimento bebe o cipó sagrado e deixa seu corpo de carne para trás. Ele se transforma em yaguareté, a onça verdadeira, para correr pelos caminhos invisíveis do universo e combater os maus espíritos que trazem a doença e a fome para a aldeia. A onça-pintada é o duplo do xamã, o espelho de sua força oculta e o próprio poder da terra que se levanta para vigiar o sono dos homens.
— KOPENAWA, Davi, A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, 2015, Companhia das Letras
O jaguar (Panthera onca) ocupa o topo da cadeia alimentar nas florestas tropicais, agindo como uma espécie-chave para o equilíbrio ecológico. A perda de habitat e a fragmentação das populações isolam os indivíduos, reduzindo a variabilidade genética e ameaçando a sobrevivência a longo prazo. Projetos de conservação que estabelecem corredores ecológicos são fundamentais para permitir o fluxo gênico e mitigar os conflitos entre seres humanos e grandes felinos. A preservação deste predador não é apenas a salvaguarda de uma espécie icônica, mas a manutenção da integridade estrutural e funcional de ecossistemas inteiros que sustentam a biodiversidade americana.
— FERRARI, Stephen F., Ecologia e Conservação de Mamíferos Neotropicais, 2011, Editora UFPA
A proteção da fauna silvestre e, de modo muito particular, a salvaguarda de grandes predadores como a onça-pintada, constitui um imperativo de soberania ambiental que o Estado não pode delegar. O avanço desmedido do desmatamento e a ocupação desordenada destroem o patrimônio natural. Propomos diretrizes severas de fiscalização e o fortalecimento das reservas biológicas para que o rugido da onça continue a ecoar como símbolo de uma pátria que protege suas riquezas. Não haverá desenvolvimento sustentável se permitirmos a extinção dos símbolos vivos de nossa integridade ecológica e de nossa identidade nacional.
— SILVA, Marina, Diretrizes para a Proteção da Biodiversidade Brasileira, 2005, Edições MMA
A onça saltou do barranco como um raio de sol malhado que rasgava a penumbra da mata densa. O fotógrafo imobilizou-se, sentindo o sangue congelar nas veias diante daquela cabeça imensa, as orelhas coladas ao crânio e as ventas abertas em um esturro terrível que vibrava no peito. Os caninos brancos e afiados reluziam sob os beiços retorcidos em fúria pura, enquanto o animal avançava decididamente em sua direção, a musculatura dos ombros contraída para o bote definitivo. Naquele instante eterno, o clique da câmera registrou o poder supremo da natureza que recusa ser domesticada pelo homem.
— MARQUES, Xavier, Narrativas do Sertão e da Mata, 1928, Livraria Catilina
Referências bibliográficas
— KOPENAWA, Davi, A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, 2015, Companhia das Letras
— QUEIROZ, Rachel de, O Quinze e Outras Histórias do Sertão, 1930, José Olympio Editora
— ANDRADE, Mário de, O Banquete dos Deuses e os Símbolos da Noite, 1943, Livraria Martins Editora
— BARROSO, Gustavo, O Sertão e o Mundo dos Encantados, 1924, Livraria Castilho
— MEIRELES, Cecília, Crônicas da Terra e do Ar, 1952, Editora Nova Fronteira
— CASCUDO, Luís da Câmara, Geografia dos Mitos Brasileiros, 2002, Global Editora
— FERRARI, Stephen F., Ecologia e Conservação de Mamíferos Neotropicais, 2011, Editora UFPA
— REGO, José Lins do, Histórias da Velha Totônia, 1936, José Olympio Editora
— SILVA, Marina, Diretrizes para a Proteção da Biodiversidade Brasileira, 2005, Edições MMA
— MARQUES, Xavier, Narrativas do Sertão e da Mata, 1928, Livraria Catilina
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
Filme 35mm
Captura da Imagem
analogic
Dimenções e tamanho do original
5362px x 3619px - 24.4MB
Capa
P05_098.jpg
Anexos
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Identificador uma palavra
Felinos
Pessoas na foto
none
alt_text
P05_098 - Cumplicidade da onça - Leonide Principe
Resumo dos metadados
P05_098 - Leonide Principe
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 80-200mm f2.8
Diapositive Film Fujichrome Velvia 50
Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene - Holding a camera connected flash, framing on dark background
Original file size: 5362px x 3619px Size: 24.4MB
Location Taken: CIGS - Manaus - Amazonas - Brasil
Persons shown: none
Coordenates: 3.10053° S - 60.04543° W
Date Taken: 1994
License: Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
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