Crianças de outros tempos
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P29_690 Crianças de outros tempos
Data de atualização
8 de May de 2026
Código da Fotografia
P02_032
Título da Foto
Crianças de outros tempos
Legenda minimalista
P02_032 Crianças de outros tempos
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
As silhuetas de três crianças destacam-se nesse pôr-do-sol do extremo Norte brasileiro, na aldeia Yanomami de Xirimihwiki.
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Na aldeia Xirimihwiki, Reserva Yanomami, Serra dos Surucucus, em Roraima, crianças de outros tempos brincam a tempo pleno, o dia todo, todos os dias, herdeiros de uma civilização ecoalfabetizada. Povos civilizados primeiramente cuidam de suas crianças, primeira e inequívoca condição do processo civilizatório.
E nossas crianças? Sentadas por horas a fio, aborrecidas e reprimidas em sua natural tendência lúdica são preparadas para serem os sérios burocratas do amanhã.
Aqui se trata apenas de constatar, nos povos nativos, aquilo que o nosso povo esqueceu, ou talvez nunca teve: a capacidade, altamente prioritária, de preservar a alegria e a liberdade das crianças, de reconhecer, respeitar e cuidar da nossa mãe maior: Mãe Terra.
Fenômeno
Uma estranha coluna de luz paira sobre a cabeça das crianças, mais marcada na figura da direita e a do meio. Me perguntei seriamente o que isso poderia ser, como esse fenômeno se produziu sobre o filme diapositivo. Pensei que na hora da revelação a química correu da área escura para a área clara, mas então deveria ser mais escura do que o céu. Sinceramente não sei, o mistério permanece… apenas posso garantir que não foi nenhum efeito criado.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
P29\689 e P29\690
Eu não lembraria da data dessa expedição se não fosse para o meu amigo Ulysses Barbosa, que, na época, era o técnico do entomólogo e amigo Vitor Py-Daniel. Companheiro de muitas expedições, hoje Ulysses é doutor e ainda espero fazer alguma expedição com ele. A data certa daquela viagem à Serra dos Surucucus foi de 26 de Novembro a 2 de Dezembro de 1991. Naquela época as câmera eram analógicas, não gravavam metadados como fartamente fazem as câmeras digitais em nossos dias. A expedicão científica fazia estudos sobre a família Simuliidae, borrachudos que podem transmitir oncocercose, a cegueira dos rios, doença restrita à reserva Yanomami.
Eu documentava a expedição e ao mesmo tempo produzia imagens para o meu arquivo.
Um menino, muito curioso, nunca deixou de acompanhar o nosso time, observando cuidadosamente tudo que a gente fazia.
Não vou escrever o nome do menino, pois esse povo não diz nome à toa. Chamar um yanomami pelo nome dele o deixa envergonhado ou zangado, o nome verdadeiro fica reservado, pois está ligado ao sopro da vida (KOPENAWA, 2015).
O menino sempre levava com ele arco e flecha, de brinquedo, mas funcional. Um dia, estavamos na floresta, mas ele não tinha a sua arma e eu perguntei do arco. Ele pediu meu facão, e logo perto dele cortou uma haste verde, procurou no chão da floresta, e como por magia, não sei como, de lá, de baixo das folhas secas surgiu uma varinha seca, bem leve, a flecha perfeita. Então tirou a casca de uma árvore (envira), trabalhou a fibra de uma maneira habilidosa e apresentou uma cordinha tão perfeita que eu não poderia distinguir de algo comercial. Acredito que tinha se passado uns 15 minutos quando ele atirou num cupinzeiro aos 7-10 metros de distância e o acertou com o seu novo arco e flecha. Me olhou e abriu um sorriso inesquecível.
É importante dizer que observei várias vezes essa destreza, diria inata. Os povos da floresta, indígenas ou caboclos, sempre me surprenderam com essa capacidade de materializar coisas na floresta: eles ouvem um passaro, cortam uma folha de palmeira, que está do lado, e fazem um pequeno instrumento que imita aquele som. Tem que carregar breu ou outros frutas, eles fazem um mochila de folhas perfeita, com regulagem e tudo mais. Já vi o caboclo acabar o papel da porronca (fumo) e ali, bem do lado, havia um tauari (Couratari spp.): ele cortou um pedaço de casca e começou a folhear as finas camadas, de longe melhores que as sedas mais fina da tabacaria.
Localidade da tomada
Aldeia Yanomami - Serra dos Surucucus - Roraima - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
1991
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Aldeia Xirimihwiki | Amazônia | América do Sul | América Latina | ameríndios | Brasil | crianças | GENTE | PAISAGENS | pôr-do-sol | povos indígenas | Roraima | Serra dos Surucucus | silhueta | tramonto | Yanomami
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Autodenominação derivada de yanoma (ser humano), termo que designa a humanidade em oposição aos seres espirituais e animais, reafirmando o pertencimento a um grupo social unido por língua e costumes (ALBERT, 2004). O povo habita uma área de floresta tropical de aproximadamente 19,2 milhões de hectares na fronteira entre o Brasil (Amazonas e Roraima) e a Venezuela (ISA, 2024). No Brasil, a Terra Indígena Yanomami abrange 9,6 milhões de hectares e possui uma população de cerca de 31 mil pessoas (GOV BR, 2025). O conceito de identidade é indissociável de urihi, a terra-floresta entendida como entidade viva e fundamental para a existência de cada indivíduo (KOPENAWA; ALBERT, 2015).
Etimologia (suporte sintético com revisão humana)
A palavra Yanomami designa, na língua desse povo, os seres humanos, em oposição a outras categorias de seres da floresta e do cosmos. Deriva de yanoma, que remete ao conceito de humanidade, civilidade e pertencimento ao grupo social que compartilha a mesma língua e costumes (ALBERT, 2004). Historicamente, o termo foi adotado por antropólogos e missionários para identificar o conjunto de comunidades que habitam o território entre o Brasil e a Venezuela. O nome reafirma a identidade de um povo que se define pela sua relação intrínseca com a urihi, a terra-floresta, entendida não apenas como espaço geográfico, mas como uma entidade viva e pulsante, fundamental para a existência de cada indivíduo (KOPENAWA; ALBERT, 2015).
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
O que nós chamamos de urihi, a terra-floresta, não é uma área muda e morta. É um ser vivo. Ela tem um sopro de vida, wixia, que é muito longo. As árvores não estão ali paradas à toa. Elas estão vivas, elas respiram como nós. A floresta é cheia de espelhos onde as imagens dos xapiri dançam. Se os brancos continuarem a destruir a floresta, o céu vai cair e vai esmagar todo mundo, não vai sobrar ninguém para contar a história.
— KOPENAWA, Davi. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami, 2015, Companhia das Letras
Os Yanomami são um povo que vive em um universo de imagens espirituais. Os seres humanos são apenas uma parte de uma vasta rede de seres que inclui animais, plantas e os espíritos xapiri. A criança Yanomami cresce aprendendo a ler a floresta não como um recurso a ser explorado, mas como um cosmos onde cada elemento tem um nome, uma origem e um papel na manutenção do equilíbrio do mundo. O olhar deles sobre o horizonte é o olhar de quem pertence ao lugar.
— ALBERT, Bruce, Yanomami: O espírito da floresta, 2003, Fundação Cartier para a Arte Contemporânea
A demarcação das terras Yanomami foi um passo fundamental para garantir a sobrevivência física e cultural desses povos. Proteger o território Yanomami é garantir que as futuras gerações possam continuar vivendo de acordo com suas tradições, caçando, pescando e cultivando suas roças em harmonia com a natureza. A integridade da floresta amazônica depende diretamente da presença e da proteção das comunidades indígenas que nela habitam há milênios.
— ANDUJAR, Cláudia, A vulnerabilidade do ser, 2005, Cosac Naify
A criança yanomami não é educada por meio de lições formais, mas através da observação e da participação direta na vida cotidiana da comunidade. Ela acompanha os pais na coleta, aprende os nomes das plantas e o comportamento dos animais. O brincar é um ensaio para a vida adulta, e a liberdade de movimento na aldeia e nos arredores da floresta confere a esses jovens uma autonomia e um conhecimento profundo do ecossistema que os rodeia.
— ZACQUINI, Carlo, Os Yanomami e o contato, 1990, Edições Loyola
As crianças são como as mudas de plantas novas que crescem na sombra das árvores maiores. Elas precisam da terra boa e do tempo certo para florescer. Na aldeia, quando o sol se põe, as crianças param para olhar o céu e a floresta. Elas sabem que a floresta é a sua casa e que sem ela o povo yanomami não pode existir. O futuro delas está guardado no silêncio das árvores e na força dos nossos antepassados que cuidaram deste lugar.
— Liderança Indígena Yanomami, Relatório de Impacto Ambiental e Cultural, 2012, Instituto Socioambiental
Referências bibliográficas
— ALBERT, Bruce. Yanomami: O espírito da floresta. Rio de Janeiro: Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, 2003.
— ANDUJAR, Cláudia. A vulnerabilidade do ser. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
— KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
— ZACQUINI, Carlo. Os Yanomami e o contato. São Paulo: Edições Loyola, 1990.
— INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Relatório de Impacto Ambiental e Cultural. São Paulo: ISA, 2012.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
Filme 35mm
Captura da Imagem
analogic
Dimenções e tamanho do original
5403px x 3660px - 9.8MB
Capa
P02_032.jpg
Anexos
P29_691.jpg - P29_690.jpg
Identificador uma palavra
Yanomami
Pessoas na foto
indigenous children
alt_text
P02_032 - Crianças de outros tempos - Leonide Principe
Resumo dos metadados
P02_032 - Leonide Principe
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 80-200mm f2.8
Diapositive Film Fujichrome Velvia 50
Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene -
Original file size: 5403px x 3660px Size: 9.8MB
Location Taken: Aldeia Yanomami - Serra dos Surucucus - Roraima - Brazil
Persons shown: indigenous children
Coordenates: 2.83568° N - 63.64978° W
Date Taken: 1991
License: Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
Licença de uso
Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Termos de uso
Recurso Educacional Livre
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