Artista da malandragem


Data de atualização
2 de July de 2026
Código da Fotografia
P20_462
Título da Foto
Artista da malandragem
Legenda minimalista
P20_462 Artista da malandragem
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Uma tomada de flash, com o fundo preto do sub-bosque, destaca em primeiro plano o macaco-prego segurando uma flor de maracujá-do-mato na mão. Pensando em termos humanos, estaríamos observando uma postura contemplativa do primata. Na segunda foto anexa, no segundo disparo de flash, tudo leva a crer que ele está cheirando a flor, bem perto do nariz...
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Naquela estação da seca, eu pisava no chão de uma floresta que, na cheia, alagaria com mais de dois metros acima de onde agora estavam meus pés.
Fotografava uma flor de maracujá-do-mato (Passiflora foetida), que se destacava como um farol na penumbra do sub-bosque. Estava completamente absorvido na minha tarefa, quando o destemido desafiador chegou, como sempre furtivo e desconfiado. Logo chequei meu equipamento, confirmando que não houvesse nada que pudesse ser agarrado pelo desacreditado animal, por vocação dedicado ao roubo de pequeno objetos. Certamente ele percebeu as minhas precauções e, rápido no raciocínio, desviou a atenção dele para a flor e a colheu. Naquele exato momento, o fluxo do tempo da cena que estava na minha frente entrou no modo câmera lenta, ao contrário da emoção interna, que era capturada num galope acelerado. Na exaltação do incrível momento, fui tomado pelo frenesi, eu via a cena de uma série excepcional de fotografia e comecei a disparar. Porém, o flash não tinha esse gás todo e nem teria tempo para trocar as pilhas. Eu só consegui as duas fotografias aqui apresentadas e, então, a minha fonte de luz eclipsou. A terceira imagem ficou gravada apenas em meu circuito neuronal e teria ilustrado o propósito final do simpático malandro. Após a captura fotográfica, eu ansiava para revelar aquele registro. Revelado e ainda secando a tira do diapositivo, acalmei e finalmente sorri, confirmando mais tarde o resultado na mesa de luz: nessa hora, já podendo filosofar, me enxerguei como o tosco executor de um plano. Ele, o Cebus apella, era o verdadeiro artista… ele brindou-me duas das minhas melhores fotografias… antes de comer a flor.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
P20_463 Cheirando a flor
Eternizado num sublime momento de refinada sensibilidade o Cebus apella num primeiro momento se abandona ao prazer do olhar contemplativo, então, no percurso da flor até o nariz, passa ao deleite olfativo... que romântico!
Mas não se engane, ele é um malandro! Um simpático malandro. Esse percurso da flor, desde a contemplação visual até o gesto do cheirar, seria concluído com uma terceira etapa, não registrada, envolvendo o deleite gustativo: a chegada na boca do macaco. Tenho quase certeza que ele apagou o meu flash. Se ele não o tivesse sabotado, eu teria o propósito final, eu teria a prova de uma capacidade extrema de gozo multi-sensorial... o ver, o cheirar e o saborear. Porém devo admitir que aquela flor mastigada e massacrada ficou melhor numa dimensão latente. Ela não estaria à altura estética das duas imagens concedidas.
Certamente haverá quem pergunte qual é a relação sincrónica entre meu dedo e o as três etapas multi-sensoriais do macaco, como podem essas duas esferas aparentemente distintas se conectar? Há uma única palavra que explica: entrelaçamento.
Legenda limitada (max 500 caracteres, resumo geral das narrativas, suporte sintético com revisão humana)
Na estação da seca, numa floresta que alaga com mais de dois metros na cheia, fotografava uma flor. Ele chegou, furtivo. Meu cuidado impedia roubar algo, desviou para a flor e a colheu. O tempo virou câmera lenta; a emoção, galope. Disparei duas vezes, na terceira o flash falhou. Ao revelar o filme, sorri: ele era o verdadeiro artista, brindando-me duas das minhas melhores fotografias… antes de comer a flor. O mastigado ficou num universo paralelo, não teria a mesma estética do concedido.
Localidade da tomada
Paraná do Ariaú - Iranduba - Amazonas - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
1993
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | animais | Brasil | Cebus apella | contemplação | emoção | FAUNA | FLORA | flores | Iranduba | macaco-capuchinho | macaco-prego | macacos | mamíferos | maracujá-do-mato | paraná do Ariaú | Passiflora cincinnata | plantas | primatas | Reino Animal | Sapajus apella
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Do português prego – referência à cabeça escura e arredondada que lembra a cabeça de um prego, ou do tupi ka'a-péguá – habitante da floresta. Nome popular para primatas dos gêneros Sapajus e Cebus, macacos de médio porte com pelagem variando do marrom ao negro, caracterizados por tufo de pelos na cabeça e cauda não preênsil. Ocorrem em florestas tropicais e áreas de transição da América do Sul, incluindo a Amazônia oriental e o Cerrado, conforme registra Lynch Alfaro et al. (2012). Onívoros oportunistas, alimentam-se de frutos, insetos, pequenos vertebrados e ovos. Reconhecidos por inteligência excepcional: utilizam ferramentas como pedras para quebrar cocos e galhos para extrair insetos, comportamento documentado por Fragaszy et al. (2004). Vivem em grupos sociais complexos com hierarquias definidas e comunicação vocal diversificada. Espécie indicadora de qualidade ambiental, sensível à fragmentação de habitat, alerta IUCN (2020).
Atualizado em 2026-03-23 16:27:39
Etimologia (suporte sintético com revisão humana)
Estabelecido por Carl Linnaeus em 1758 (Systema Naturae), o nome Cebus apella reflete a tradição de utilizar o grego clássico e o latim para descrever traços anatômicos distintivos. O gênero deriva do grego kêbos, termo antigo para macacos de cauda longa. Já o epíteto apella provém do latim para sem pele ou circuncidado, uma alusão de Linnaeus ao topo da cabeça do animal, onde a pelagem escura e curta simula uma calvície ou tonsura. Para os naturalistas eruditos, a motivação ia além da morfologia: buscavam projetar na fauna neotropical uma ordem sistemática que conectasse o novo mundo ao vocabulário clássico europeu. Segundo a taxonomia de Colin Groves (Primate Taxonomy, 2001), essa nomenclatura imortalizou o contraste visual do capuz cefálico, elevando a observação prática ao rigor da norma acadêmica internacional.
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
Não se engane com o tamanho do macaco-prego. Ele é pequeno, mas sua cabeça é grande de ideias. Quando ele quer um mel que está no fundo do pau, ele não enfia a mão para ser picado; ele usa um graveto. Esse saber de usar o que está no chão para pegar o que está no alto é o que chamamos de ciência do macaco. Ele é o bicho que mais se parece com o humano na hora de ter pressa e na hora de ter paciência para conseguir o que quer.
— KOPENAWA, Davi. (2010)
O macaco-prego é o parente mais engraçado e perigoso do mato. Para nós, ele é o mestre da malícia. Ele olha para o homem e ri, porque sabe fazer tudo o que a gente faz: usa faca de pedra, engana o inimigo e cuida dos filhos com as mãos. O povo antigo dizia que ele era uma pessoa que não quis mais trabalhar na roça e preferiu viver de colher o que já estava pronto, mas levou consigo a inteligência de saber como abrir qualquer porta da natureza.
— MUNDURUKU, Daniel. (2009)
Para o naturalista, o macaco-prego é o 'demônio' da floresta por sua audácia e o 'sábio' por sua engenhosidade. Eles são capazes de enganar predadores e até mesmo humanos com falsos alarmes, usando a distração como arma. O Cebus apella habita um mundo de causa e efeito; ele entende que a pedra quebra a casca e que o grito afasta o rival. É um animal que vive no limite entre o instinto e a razão, sempre com um passo à frente do observador.
— BATES, Henry Walter. (1863)
A vida social do macaco-prego é uma rede de alianças e estratagemas. Eles arrazoam o poder dentro do bando através de gestos, vocalizações e, acima de tudo, do compartilhamento de descobertas. Vi um macho jovem observar o mais velho usar uma pedra e, minutos depois, tentar repetir o gesto com uma precisão assustadora. Eles possuem uma cultura material transmitida pelo exemplo, provando que a inteligência na Amazônia é uma herança compartilhada entre gerações.
— ATTENBOROUGH, David. (1990)
Há um brilho de intenção no olhar do macaco-prego que falta em outros animais. Quando um bando se aproxima, a floresta muda de ritmo: eles reviram cascas de árvores, testam galhos e parecem estar constantemente resolvendo problemas. Essa curiosidade incansável é o motor de sua sobrevivência. O Cebus não espera o alimento cair; ele o caça, o descasca, o lava e, se necessário, o processa com instrumentos, demonstrando uma plasticidade comportamental que o aproxima dos grandes antropoides.
— LORENZ, Konrad. (1952)
O Cebus apella é o engenheiro da floresta. Ao contrário de outros primatas que se limitam ao que a natureza oferece pronto, o macaco-prego manipula a realidade. Observá-lo escolhendo uma pedra chata como bigorna e outra arredondada como martelo para quebrar cocos de palmeira é testemunhar o nascimento da tecnologia. Eles não apenas usam ferramentas; eles as selecionam com critério, calculando o peso e a resistência, em um exercício de pura física aplicada no meio da mata.
— FRAGASZY, Dorothy. (2004)
No imaginário do caboclo, o macaco-prego é o 'Macaco Simão', a personificação da esperteza que beira a crueldade cômica. Ele é o animal que engana a onça e zomba do jacaré. Mas, para além da fábula, o habitante da floresta respeita o Cebus como um 'gente pequena'. Dizem as velhas parteiras das ilhas que o macaco-prego sabe curar suas próprias feridas usando resinas de árvores, e que ele observa os humanos para aprender a abrir trincos e nós. Essa 'malícia' é, na verdade, uma cognição aguda: o bicho entende a intenção por trás do gesto humano. Se você aponta uma arma, ele some; se você oferece comida, ele calcula a distância da segurança. Ele é o mestre da sobrevivência, um espírito livre que escolheu a inteligência como escudo contra os perigos da mata escura.
— TOCANTINS, Leandro. (1987)
Referências bibliográficas
— ATTENBOROUGH, D. _The Trials of Life_. Londres: Collins/BBC, 1990.
— BATES, H. W. _The Naturalist on the River Amazons_. Londres: John Murray, 1863.
— FRAGASZY, D.; VISALBERGHI, E.; FEDIGAN, L. _The Complete Capuchin: The Biology of the Genus Cebus_. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
— KOPENAWA, D.; ALBERT, B. _A Queda do Céu_. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
— LORENZ, K. _King Solomon's Ring_. Londres: Methuen, 1952.
— MUNDURUKU, D. Contos Indígenas Brasileiros. São Paulo: Global, 2009.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
Filme 35mm
Captura da Imagem
film
Dimenções e tamanho do original
5259px x 3503px - 30.7MB
Capa
P20_462.jpg
Anexos
P20_463.jpg
Identificador uma palavra
Cebus apella
Pessoas na foto
none
alt_text
P20_462 - Artista da malandragem - Leonide Principe
Resumo dos metadados
P20_462 - Leonide Principe
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 80-200mm f2.8 - Camera mounted flash - Diapositive Film Fujichrome Velvia 50 - Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene Holding a camera connected flash
Original file size: 5259px x 3503px (30.7MB)
Location Taken: Paraná do Ariaú - Iranduba - Amazonas - Brazil
Persons shown: none
Coordinates: 3.09193° S - 60.44195° W
Date Taken: 1993
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
Licença de uso
Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
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Recurso Educacional livre
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