
Fluxo de trabalho
Como Automatizei Meu Acervo
Como Automatizei Meu Acervo
Olá, comunidade!
Dois meses de isolamento social absoluto, não foi viagem de campo, nem expedição na floresta — apenas fluxo de trabalho, galinheiro e horta. Tranquei-me em casa com um objetivo: integrar DAM, Obsidian e Tainacan ao meu fluxo de trabalho de forma definitiva. Isso eliminou do meu vocabulário ‘depois eu faço isso. Não, não avança para a próxima etapa até não resolver todos os os menores detalhes.
Hoje, posso dizer: a plataforma está pronta. Funcional, estável e direcionada à produção real.
O DESAFIO
Trabalho com documentação fotográfica na Amazônia. Meu acervo tem mais de 100.000 fotografias. Dessas, 5.000 — as mais significativas — serão indexadas e publicadas como Recurso Educacional Livre.
Por anos, perdi horas preciosas copiando e colando metadados entre planilhas, bancos de dados e sistemas. Cada foto exigia o mesmo ritual: abrir um software, copiar um campo, colar em outro, conferir aspas, ajustar formato, torcer para não perder nada no caminho.
O FLUXO (SEM MISTÉRIO)
Três ferramentas, uma em cada etapa. Nada de caixas-pretas.
Photo Mechanic — A Porta de Entrada
É aqui que tudo começa. O Photo Mechanic é um gerenciador de imagens usado por fotojornalistas — rápido, eficiente, proprietário, mas com uma qualidade essencial: ele escreve os metadados na própria foto (IPTC/EXIF). Isso significa que os dados viajam com o arquivo. Se um dia eu migrar de ferramenta, não perco nada.
No PM, cada foto é:
Selecionada e classificada
Indexada com metadados técnicos (câmera, lente, ISO, data)
Geolocalizada
Marcada com campos customizados para automação (diretórios, busca avançada)
No final, o PM exporta um arquivo de texto — um resumo estruturado de tudo que foi inserido.
Obsidian — O Estúdio de Curadoria
É aqui que a mágica acontece. O Obsidian é um editor de notas baseado em arquivos Markdown locais. Texto puro. Sem nuvem obrigatória. Sem formato proprietário.
O arquivo do Photo Mechanic entra no Obsidian e vira uma Ficha da Foto. É nesse espaço que eu:
Escrevo títulos e legendas (inclusive de acessibilidade)
Desenvolvo a descrição longa da foto
Adiciono descrições de fotos anexas
Preencho glossário, citações de autores, referências bibliográficas.
Trata-se de escrever blocos de texto, Notas Atômicas indexadas que são linkadas, podem ser reutilizadas, e, melhor ainda, são editadas num único lugar.
A Ficha é o espaço de produção e atualização. Tudo que eu escrevo ali fica salvo em Markdown — legível por qualquer editor, hoje ou daqui a 30 anos.
A função definitiva da Ficha? Gerar o CSV limpo para o Tainacan. Um script automático (Templater) converte o Markdown para HTML, formata os campos e monta o arquivo.csv com 27 campos de metadados. Tendo a Ficha da Foto pronta, o processo de criar ou atualizar um Item leva poucos segundos.
Tainacan — A Casa Pública
Plugin do WordPress, o Tainacan é o repositório final. É onde o acervo ganha vida pública, com critérios museológicos, estrutura de coleção e difusão aberta.
O CSV entra, o item é criado (ou atualizado), e a foto está publicada — com todos os metadados preservados, imagens vinculadas, relacionamentos intactos.
O QUE EU GANHEI COM ISSO
Não é só técnica. É tempo devolvido à produção.
Antes, eu gastava horas formatando células, conferindo aspas, recuperando arquivos presos em softwares que exigem exportações complicadas. Agora, foco no que importa: curadoria, narrativa, contexto cultural.
O fluxo responde rápido. É transparente. E, o mais importante: eu controlo cada etapa.
POR QUE OBSIDIAN E TAINACAN?
Escolhi o Obsidian porque meus dados permanecem meus. São arquivos Markdown que posso ler, editar e migrar sem depender de uma empresa, licença ou interface específica. Isso me dá liberdade para experimentar, ajustar e escalar sem medo de ficar refém de uma ferramenta.
O Tainacan, por sua vez, recebe esse fluxo com elegância. Metadados ricos, relacionamentos preservados, imagens vinculadas. E como ambos são open-source, o ciclo inteiro é auditável, adaptável e alinhado com os valores de acesso aberto e preservação cultural que guiam meu trabalho.
UM ALERTA SOBRE AUTOMATIZAÇÃO
Faço apenas uma ressalva importante sobre automatização em excesso. É fácil se empolgar e criar fluxos tão complexos que o usuário vira refém do script. Se algo quebra, ninguém sabe consertar. Por isso, parei onde senti que ainda tenho controle total. Se o script falhar, eu consigo fazer manual. Se o formato mudar, eu consigo migrar. A automação serve ao humano, não o contrário.
NO FIM DAS CONTAS
O fluxo respeita o meu tempo, os meus dados e a minha autonomia (soberania digital). É sobre clareza, controle e devolver a energia criativa para onde ela realmente importa: na floresta, nas histórias, nas pessoas.
Aceito sugestões, opiniões e trocas de ideia. Estou à disposição.
Um abraço e boa produção a todos!



