Eterno brincalhão
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A70_2092 Eterno brincalhão
Data de atualização
Código da Fotografia
Título da Foto
Legenda minimalista
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Um animal selvagem, às beiras do rio Negro, brinca de bola com humanos. Eu também estou brincando, torcendo, sentindo aquela mesma alegria no meu coração, a bola pula na minha câmera, eu procuro mantê-la nos limites do meu enquadramento e espero o eterno brincalhão pular fora d’água, naquela situação de extrema concentração que todo fotógrafo gosta.
O time do boto domina a bola, o estranho jogador some no fundo do rio com o brinquedo. Parece que a brincadeira acabou, todo o mundo fica na expectativa e, de repente, a bola pula fora da água, bem longe dos outros jogadores. Às vezes parece que ele se foi, a bola fica parada por um tempo interminável na superfície da água e quando o terrícola se aproxima para tentar agarrar, aí o brinquedo pula alto e o jocoso ser surge com esse seu sorriso estampado na cara. Imagino as piruetas e cambalhotas que eles deve aprontar lá embaixo, onde outro paralelo, misterioso e refinado jogo deve estar acontecendo. Imagino as fotografias que eu poderia realizar lá embaixo…
Como todos seus parentes, o boto-vermelho (Inia geoffrensis) tem essa natureza jovial e festiva estampada em seu ADN. Na Amazônia, é conhecido por frequentar as noites dançantes do beiradão: de chapéu, vestido de branco, elegante e sedutor, o feiticeiro encanta a todos, e mais ainda a cunhantã que ele decidiu conquistar. É conhecido por entreter-se levantando as canoas por baixo, especialmente, se há uma mulher a bordo. E que dizer se ela for menstruada, ela nem ousaria se aventurar sobre as águas e nem os companheiros de viagem a deixariam embarcar.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
Era só por causa das duas câmeras que eu tinha penduradas no pescoço que conseguia resistir ao forte impulso de pular na água. Porém essas duas câmeras não diminuíam em nada meu prazer de participar do jogo. Eu tinha na minha mira um modelo de vida extraordinária, algo que sempre considerei como um ideal: liberdade total de fazer o que bem querer, sem condicionamento, a não ser a lei universal: o direito natural da liberdade que vive em harmonia com todos os seres. Certamente, o boto conhece e aplica esta lei. O alimento do nobre libertário é farto e nunca colocou em risco a existência daquelas espécies que o alimentam. E mais importante do que tudo, por aquela mesma lei, este mamífero aquático é indubitavelmente um ser feliz. O boto-vermelho não possui nada de imóveis, muito menos móveis, não sabe o que é compromissos e o próprio alimento diário se torna uma outra brincadeira.
Que mais eu poderia querer além de nadar livre e alegre, o dia todo. Dizem as lendas que no fundo rio há uma grande cidade dos botos, onde a festa é permanente, onde tudo é motivo de celebração, onde os banquetes e as deliciosas iguarias que nunca acabam. Há humanos que, mais preparados nas artes xamânicas, dizem ter visitado essa cidade e a descrevem como o lugar mais abençoado da Terra. Dizem que aquele que quer voltar de novo à superfície, não deve de maneira alguma aceitar qualquer bebida ou manjar que venha a lhe ser oferecido. Ao aceitar, ali permaneceria, encantado para o resto de sua vida.
Na foto, no paraná do Ariaú, o boto que brinca de bola é um ser livre. Ele brinca porque quer. Quem já não viu golfinhos brincando com humanos dentro de grande piscinas? Seria isso praticado pela pura alegria de brincar? Seria pela maravilha do público que assiste o show? Seria uma maravilhosa relação com o ser humano, talvez seria não fosse a busca unilateral do lucro que cria situações questionáveis de estresse para o animal, show atrás de show, treinamentos exaustivos, tudo para garantir uma venda puxada de ingressos. Mas o cetáceo, com sua inteligência elevadíssima, com sua massa cerebral maior que a humana, com sua capacidade de produzir mais de 50 sons, com esse alfabeto dobrado, ele não perde a compostura, ele brinca, brinca sem parar… Certa vez, num deste aquários comerciais, por uma amizade com treinador, fora do horário do show, observava o golfinho na beira da piscina. Meus pés na água, de repente o mágico ser veio na minha frente, trazendo um pedacinho de folha seca na ponta do focinho. Trazendo para mim, fiquei emocionado, e deixei cair de novo na água. Ele foi buscar e de novo trouxe para mim, e de novo, até eu entender que o que ele estava fazendo era para limpar a piscina. Como poderia saber com a minha ignorância de uma educação antropocêntrica. Me consola o fato dessas experiências me aproximarem sempre mais da linguagem da natureza, do idioma universal.
O boto-vermelho é o guardião de uma linhagem sagrada que une o leito dos rios ao Rio do Céu. Na cosmologia amazónica, estes seres são Encantados, entranhados numa geografia espiritual onde as águas refletem a Via Láctea. Esta sabedoria converge com a visão New Age de autores como Joan Ocean e Timothy Wyllie, que identificam os cetáceos como consciências multidimensionais oriundas de Sirius e das Plêiades. Como embaixadores estelares, eles ancoram frequências de harmonia na Terra através do som e da vibração. Longe da vaidade humana, o boto-vermelho atua como uma tecnologia viva e cósmica, preservando o equilíbrio entre a floresta e as estrelas, ignorando as ambições materiais em prol da cura planetária.
Legenda limitada (max 500 caracteres, resumo geral das narrativas, suporte sintético com revisão humana)
Cidadão de outros planetas
Que seria do planeta Terra sem a tua presença? Dizem que você e seus parentes do oceano, golfinhos e baleias, vieram do sistema planetário de Sírius, estrela dupla de primeira grandeza, a mais brilhante do nosso céu. Certamente, deve haver ali uma civilização muito avançada. Eles te enviaram pra cá para mostrar a estes pequenos humanos pirralhos que um universo tão imenso não foi feito apenas para a existência de um microscópico planeta na mais remota periferia do universo. Eu tenho muitas razões para te admirar, conheço teus parentes do oceano, naveguei com eles, fiquei por horas observando os pulos e as brincadeiras na proa do barco. Fiquei admirado quando o enorme cachalote emergiu a bombordo, bem ao lado do veleiro, lançando ao céu um forte jato de água. E que tal a jubarte? A misteriosa cantora… que escuto e escuto, querendo entender a mensagem celestial.
Localidade da tomada
Data e hora da tomada fotográfica
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
O Inia geoffrensis é um cetáceo que habita rios e lagos amazônicos. Seu comportamento assemelha-se ao dos golfinhos. Uma das lendas mais difundidas a seu respeito conta que ele se transforma em um jovem alto, bem trajado e de bela aparência, que frequenta festas ribeirinhas para seduzir moças. Antes do amanhecer, escapa e retorna ao rio ou lago, onde reassume sua forma de boto. Em sua expedição à Amazônia, o celebre oceanógrafo Jacques Cousteau atribuiu-lhe a denominação rosa, boto-cor-de-rosa. Na tradição amazônica, contudo, é conhecido como boto-vermelho. Costuma circular solitariamente ou em pares e aproxima-se frequentemente do ser humano, mesmo durante a pesca, podendo até competir com o pescador. O outro boto, o tucuxi (Sotalia fluviatilis), possui dorso mais escuro e é de menor porte. É mais arisco e habitualmente observado em grupos, mesmo fora da época reprodutiva.
Etimologia (suporte sintético com revisão humana)
Vermelho ou cor-de-rosa?
Os rios da Amazônia abrigam duas espécies de mamíferos aquáticos: o boto tucuxi e o boto-vermelho, sendo este último classificado como Inia geoffrensis. O Inia sempre foi conhecido pelos povos da Amazônia como boto-vermelho… até que o Comandante Cousteau chegou à Amazônia com sua inolvidável Calypso.
Ainda hoje, seja os ribeirinhos mais idosos, seja os cientistas engajados assim o denominam. Foi após a expedição do famoso oceanógrafo que esse boto foi denominado de boto cor-de-rosa. Não é difícil entender que o famoso oceanógrafo já estava condicionado a uma sociedade de consumo, que suas aventuras eram divulgadas pelas redes televisivas do mundo inteiro, e que se valiam de um charme publicitário capaz de fascinar e atrair muito mais o público da civilização urbana. Eu lembro nitidamente como os documentários da Calypso (navio do comandante Cousteau) eram entre os programas mais esperados da minha infância. A narrativa da equipe oceanográfica era envolvente e não há dúvida do que cor-de-rosa foi mais atraente que vermelho. Assim, a nova denominação, do ponto de vista regional pode ter sido equivocada e pode ter causado uma certa insatisfação em algumas pessoas. Mas de um ponto de vista planetário o boto cor-de-rosa da Amazônia teve uma projeção fenomenal e o revelou como mais uma maravilha da floresta amazônica.
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
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— MELLO, Thiago de, Poesia na Água e no Tempo, 1994, Civilização Brasileira
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As lendas dizem que o boto-vermelho se transforma em um belo rapaz, vestido de branco e com um chapéu para esconder o espiráculo no topo da cabeça. Ele seduz as moças das comunidades ribeirinhas durante as festas de santo e as leva para o fundo do rio, o Reino da Encantaria. Essa narrativa não é apenas um conto, mas uma forma de explicar gravidezes de pais desconhecidos e de manter vivo o respeito sagrado pelas águas e pelos seres que nelas habitam, garantindo que o bicho não seja caçado.
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— CARRASCO, Walcyr. Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo: Global, 2011
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O boto-vermelho, ou Inia geoffrensis, é o maior dos golfinhos de água doce, atingindo até 2,5 metros de comprimento. Diferente dos golfinhos marinhos, ele possui vértebras cervicais não fundidas, o que lhe permite girar a cabeça em 90 graus. Essa adaptação anatômica é fundamental para a sua sobrevivência, pois permite que o animal navegue com extrema agilidade por entre os troncos e galhos das florestas inundadas, conhecidas como igapós, durante a época de cheia dos rios amazônicos.
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— SILVA, Vera da. Mamíferos Aquáticos da Amazônia. Manaus: INPA, 2010
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Antigamente, ninguém matava boto. O boto é bicho encantado, ele tem a força dele. Se você fere um boto, a família dele vem atrás ou a pessoa fica doente do juízo. Ele é o dono da festa no fundo do rio. Quando a gente vê ele soprando no meio do rio, a gente sabe que ele está cuidando do peixe. Hoje em dia, o pessoal de fora não respeita mais, mas para quem é nascido na beira do Amazonas, o boto-cor-de-rosa é um parente que vive no rio e merece todo o nosso cuidado.
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— SANTOS, Manoel dos. Relatos Orais da Amazônia. Manaus: Edições Rebio, 2018
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No fundo das águas, no mundo de lá, o boto é gente como a gente. Eles têm cidades de ouro e vivem em festas. O boto-cor-de-rosa só vira bicho quando sai para a superfície. Quando ele vê uma mulher bonita na beira do rio, ele sai do seu palácio de cristal, se veste de homem e vai buscar o que deseja. Quem é encantado pelo boto nunca mais volta a ser o mesmo, fica com o coração lá no fundo, batendo no ritmo das correntezas do grande rio Solimões.
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— MELLO, Thiago de. Amazonas, Pátria da Água. Rio de Janeiro: Alumbramento, 1991
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O Boto-Vermelho é o grande pajé das águas. Quando ele aparece, o rio silencia para ouvir o seu sopro. Ele não é apenas um animal para ser estudado pelos livros dos brancos; ele é uma autoridade da floresta. O Inia geoffrensis conhece todos os caminhos debaixo da terra e sabe onde o peixe se esconde quando a seca aperta. Se o boto desaparecer, o espírito do rio vai embora junto com ele, e o povo da água vai ficar órfão de seu guia mais antigo, aquele que nadava aqui antes mesmo de existir o primeiro homem.
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— KOPENAWA, Davi. O Espírito da Floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2021
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O boto é o bicho mais inteligente que Deus colocou no rio. Ele ajuda o pescador de bem, cercando o peixe para a rede, mas ele também castiga quem maltrata a natureza. Se um homem mata um boto para tirar o couro ou o óleo, ele atrai uma panema que não sai mais da vida dele. A gente respeita o Inia porque sabe que ele é o guardião dos canais. No tempo da cheia, ele entra no meio do mato, onde a canoa não passa, e faz a limpeza do que está morto. O boto é o fôlego do Amazonas.
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— TUKANO, Álvaro. Cosmologia dos Povos do Rio. São Paulo: Hedra, 2012
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O Inia geoffrensis apresenta um dos maiores níveis de encefalização entre os cetáceos, superando até mesmo alguns golfinhos marinhos em termos de proporção massa cerebral/corporal. Sua capacidade sensorial é dominada pelo sistema de ecolocalização, essencial para a navegação em águas com visibilidade nula. No entanto, sua visão é funcional e adaptada para ambientes aéreos e aquáticos, permitindo que o animal observe presas e obstáculos acima da linha da água durante o comportamento de espionagem.
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— BEST, Robin; DA SILVA, Vera. Biology of the Amazon River Dolphin. New York: Academic Press, 1989
Referências bibliográficas
— GALVÃO, Eduardo. Santos e Visagens: Um Estudo da Vida Religiosa na Amazônia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955.
— GRUZANSKAS, Ricardo. Cetáceos Fluviais da América do Sul. Rio de Janeiro: Interciência, 2015.
— KOPENAWA, Davi. O Espírito da Floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
— MELLO, Thiago de. Amazonas, Águas da Memória. Manaus: Valer, 2005.
— REIS, Roberto; KULLANDER, Sven; FERRARIS, Carl. Check List of the Freshwater Fishes of South and Central America. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
— TUKANO, Álvaro. Cosmologia dos Povos do Rio. São Paulo: Hedra, 2012.
— ALBAGLI, Sarita. Geopolítica da Biodiversidade. Brasília: Ibama, 1998.
— CARRASCO, Walcyr. Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo: Global, 2011.
— D'ORBIGNY, Alcide. Voyage dans l'Amérique méridionale. Paris: Pitois-Levrault, 1847.
— MARTIN, Anthony. The River Dolphins. London: Academic Press, 1990.
— MELLO, Thiago de. Amazonas, Pátria da Água. Rio de Janeiro: Alumbramento, 1991.
— SANTOS, Manoel dos. Relatos Orais da Amazônia. Manaus: Edições Rebio, 2018.
— SILVA, Vera da. Mamíferos Aquáticos da Amazônia. Manaus: INPA, 2010.
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Identificador uma palavra
Pessoas na foto
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Resumo dos metadados
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 80-200mm f2.8
Diapositive Film Fujichrome Velvia 50
Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene -
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Location Taken: Paraná do Ariaú - Iranduba - Amazonas - Brazil
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Date Taken: 1997
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Source: Acervo PhotoAMAZONICA
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