A alma do peixe
G14_2938 A alma do peixe
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G14_2938 A alma do peixe
Data de atualização
18 de April de 2026
Código da Fotografia
G14_2938
Título da Foto
A alma do peixe
Legenda minimalista
G14_2938 A alma do peixe
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
O ponto de vista do fotógrafo vale-se de uma passarela de madeira, favorecendo um enquadramento de posição elevada. No final de Agosto, a vazante já avançou bem, as terras apareceram e o igarapé recuperou sua identidade com beiras demarcada. Lá em baixo, o ribeirinho sorridente mostra o peixe que acabou de pescar com arco e flecha. O peixe é um tucunaré (Cichla spp.). A figura humana e sua montaria se destacam na cor escura da água.
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
O pescador ribeirinho conhece as leis da física, porém de uma maneira diferente como elas são ensinadas nas escolas. Na hora de atirar a flecha, o ribeirinho sabe que o peixe não está onde ele o está vendo, ele precisa mirar mais em baixo, por causa daquilo que a ciência chama de refração.
Há uma lenda indígena que diz que, numa pescaria, para a flecha acertar precisa mirar na alma do peixe… Brilhante! A formulação indígena da lei da refração é simplesmente brilhante. Não há necessidade de maiores explicações, nem de obscuras teorias, ela é puramente prática.
O ribeirinho estava pescando naquela plácida tranquilidade do igapó, num furo entre o rio Negro e o paraná do Ariaú. Eu consegui um ótimo ponto de vista numa passarela de madeira e ali fiquei a tarde toda, também procurando a alma do peixe, e a do pescador.
Na meia vazante
Do final de agosto até o final de setembro é a meia vazante, dependendo do humor das águas, o nível vai baixando até dezembro. Na meia vazante os tucunarés (Cichla spp.) nadam próximos das beiras para se alimentar. Arco e flecha é uma das tantas maneiras de pescá-los.
Conversa de pescador
Ainda em nossos dias é uma questão de sobrevivência, o trabalho não é fácil no interior e toda oportunidade de conseguir um alimento é bem-vinda. Mas não é só isso, o ribeirinho gosta de pescar, faz parte de sua cultura: a pescaria, as estações do peixe, as técnicas de captura e os lugares mais apropriados dominam as conversas quando os homens se encontram. As crianças escutam as conversas de pescadores, que contam os casos de grandes heroicas pescarias: Pesquei um tucunaré que tinha mais de metro! – De um olho a outro… complementa ironicamente o engraçado. A risada geral anima a turma e as crianças gostam e aprendem.
Pouca visibilidade
Não é somente a alma do peixe que desafia o pescador, a pouca visibilidade da água também o obriga a profundos cálculos matemáticos sobre o movimento da água e as linha apenas esboçadas do peixe. Ele calcula e adivinha onde o seu almoço está.
Localidade da tomada
Paraná do Ariaú - Iranduba - Amazonas - Brazil
Data e hora da tomada fotográfica
2010-08-30 01:51:07
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Amazonas | Amazônia | América do Sul | América Latina | arco e flecha | Brasil | caboclos | canoas | floresta inundada | Furo do Meio | GENTE | igapó | Iranduba | PAISAGENS | paisagens aquáticas | paraná do Ariaú | pescaria | ribeirinhos
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Termo que designa o habitante tradicional das margens dos rios e canais da Amazônia. Resultante de um longo processo de miscigenação entre populações indígenas, colonizadores europeus e, em muitos casos, descendentes de africanos, o ribeirinho desenvolveu uma cultura profundamente adaptada aos ciclos hidrológicos de cheia e vazante. Sua subsistência baseia-se tradicionalmente na pequena agricultura de várzea, na pesca artesanal e no extrativismo vegetal. A identidade ribeirinha é intrinsecamente ligada ao ecossistema fluvial, manifestando-se em conhecimentos vernáculos sobre a floresta, na arquitetura das casas de palafita e em uma organização social que prioriza a solidariedade comunitária e a autonomia em relação aos centros urbanos (GALVÃO, 1955).
Descrição
Embarcação tradicional de pequeno porte, construída em madeira, movida a remo ou por motores de popa de baixa potência (conhecidos como rabetas). É o meio de transporte elementar das populações ribeirinhas, utilizada para curtas distâncias, pesca artesanal e para o transporte do açaí das matas de várzea até os pontos de coleta ou barcos maiores. Sua estrutura leve e calado raso permitem a navegação em igarapés estreitos e áreas de vegetação densa onde embarcações maiores não conseguem penetrar (PENTEADO, 1968).
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
O antropólogo analisa cosmologias amazônicas nas quais animais possuem agência e alma, e a pesca bem-sucedida depende de compreender não apenas o corpo físico do peixe, mas sua intenção e movimento — uma formulação que o texto resume poeticamente como mirar na alma do peixe.
— VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
A ciência é a cultura de dúvida. Se não duvidarmos, não progredimos. O pescador que sabe onde o peixe está, sabe-o por uma experiência acumulada que não pode ser escrita em equações de física elementar, mas que contém toda a física do mundo real, aquela que os livros muitas vezes simplificam demais para poder explicar.
— FEYNMAN, Richard. The Pleasure of Finding Things Out. New York: Basic Books, 1999.
No meio do rio, o pescador e a canoa são um ponto só na imensidão. Ele não precisa de bússola, ele tem o sol e as estrelas, e o cheiro da água que sobe do igapó. O conhecimento dele é um conhecimento de pele, de olho, de ouvido. É a ciência da vida, que não se aprende nos bancos das escolas, mas na lida com a natureza.
— HATOUM, Milton. Relato de um Certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
A terra é o nosso corpo e os rios são o nosso sangue. O homem branco pensa que o rio é apenas água para ser usada ou vendida, mas o povo da floresta sabe que o rio é um parente. Quando pescamos, não estamos tirando algo da natureza, estamos participando de um ciclo de trocas. O peixe nos dá a sua carne porque nós respeitamos o seu espírito e conhecemos o seu caminho. Para acertar o peixe, o olho deve estar limpo e o coração deve estar em silêncio, pois a flecha só segue o caminho que a alma já percorreu.
— KOPENAWA, Davi. A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Nós não somos os donos da Terra, nós somos parte dela. O conhecimento não é algo que se guarda em gavetas ou se prova em laboratórios, é algo que se pratica na beira do rio, ouvindo o vento e observando o movimento das águas. A modernidade quer separar o humano da natureza, mas o nosso pensamento é o de que tudo está vivo e tudo tem uma intenção. O pescador que mira em baixo da água entende que a luz tem seus próprios mistérios, e esse entendimento é um diálogo com a inteligência do mundo.
— KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Referências bibliográficas
— BACHELARD, Gaston. L'Eau et les Rêves: essai sur l'imagination de la matière. Paris: Librairie José Corti, 1942.
— FEYNMAN, Richard. The Pleasure of Finding Things Out. New York: Basic Books, 1999.
— GOETHE, Johann Wolfgang von. Theory of Colours. Tradução de Charles Lock Eastlake. London: John Murray, 1840.
— HATOUM, Milton. Relato de um Certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
— KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
— KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
— ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
— THOREAU, Henry David. Walden; or, Life in the Woods. Boston: Ticknor and Fields, 1854.
— VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem: e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Leonide Principe
Tipo de camera
Câmera compacta
Captura da Imagem
digital
Dimenções e tamanho do original
3684px x 2760px - 7.1MB
Capa
G14_2938.jpg
Anexos
G14_2935.jpg - A121_3844.jpg - A121_3828.jpg - A121_3825.jpg
Identificador uma palavra
Ribeirinhos
Pessoas na foto
Fisherman
alt_text
G14_2938 - A alma do peixe - Leonide Principe
Resumo dos metadados
G14_2938 - Leonide Principe
Equipment: Canon PowerShot G11 with lens 6.1-30.5 mm set at 15.7 mm
Exposition: ISO: 80 - Aperture: 4 - Shutter: 1/320 - Program: - Exp. Comp.: -1.0, Original digital capture of a real life scene
Original file size: 3684px x 2760px, Size: 7.1MB
Location: Paraná do Ariaú - Iranduba - Amazonas - Brazil
Persons shown: Fisherman
Coordenates: 3.10622° S - 60.40128° W
2010-08-30 01:51:07
License: Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
Licença de uso
Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Termos de uso
Recurso Educacional Livre
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