Caminho de luz


Data de atualização
Código da Fotografia
Título da Foto
Legenda minimalista
Texto humano de Acessibilidade (alt_text) - Descrição dos elementos fotografados
Descrição Principal (texto humano, em revisão humana, inspirado pela fotografia)
Onde o sol desenha uma hidrovia prateada, ali o fotógrafo caça o seu assunto privilegiado. Ali, da beira do lago de Silves, no município de Itacoatiara, eu vi o perfil inconfundível do canoeiro se aproximando. Ele vinha na minha direção, do jeito que os ribeirinhos da Amazônia remam, sentado na proa da canoa, perfeitamente alinhado dentro do caminho de luz do entardecer.
Essencial e reduzido ao mínimo, o casco da canoa requer uma habilidade adquirida desde criança, brincando e aprendendo naturalmente como manter o equilíbrio e remar daquele jeito sereno, plácido e eficiente. Onde há crianças e há uma canoa na beira, ali estão as crianças, todo dia, o dia todo, pulando, empurrando, virando, afundando e esgotando. É nesse momento que o ribeirinho adquire o domínio da sua «montaria», faz dela uma extensão do corpo, dando-lhe a liberdade de se movimentar naquele mundo de água sem fim, superar moitas de capim, navegar literalmente entre as árvore da floresta inundada, denominada igapó. A canoa oferece uma aprimorada agilidade cruzando de um rio a outro, navegando através de furos. Nas épocas de cheia, as águas entram na floresta, e ali também se refugiam os peixes, que se nutrem fartamente das frutas silvestres. O ribeirinho conhece a estação desses frutos, sabe quando caem e sabe dos ávidos apreciadores subaquáticos que deles se alimentam.
Ele fica de pé com a maior naturalidade numa embarcação altamente instável e cuja borda fica a poucos centímetros da água. Ele observa os mínimos movimentos da superfície da água. Assim sabe quem está ali, onde está indo, quantos há. Ele coloca e recolhe a malhadeira no ponto mais apropriado e ainda cuida para que o jacaré, a piranha ou o boto não cheguem antes dele. O ribeirinho arpoa peixes que as vezes têm o tamanho inteiro da embarcação: com o peixe arpoado, o bravo se deixa arrastar, surfando, até cansar a sua presa e conseguir embarcá-la naturalmente sem as dificuldades que um principiante afrontaria. Ainda, no sábado, leva a família toda para o jogo de futebol em outras vilas.
Descrição de fotos anexas (texto humano, em revisão humana, inspirado pelas fotografias anexas)
Ribeirinho secando canoa
O caminho de luz sobre o lago de Silves levou o ribeirinho exatamente onde eu estava. Ele chegou na beira com seu remo, amarrou a canoa na estaca e acudiu à sua montaria. Além do remo, o outro utensílio indispensável da canoa é a cuia. A cuieira (Crescentia cujete) é um arbusto onipresente na Amazônia, o qual dá um fruto esférico do tamanho de uma bola. Após secar, o fruto é cortado pelo meio e esvaziado do seu interior: as duas semiesfera que resultam da casca da cuia são duras e bem resistentes e são utilizadas como recipiente na cozinha, na casa de farinha e para esgotar a canoa. Assim o ribeirinho, de cuia na mão secou a embarcação e tudo isso sempre aconteceu na estrada prateada que se desenhava na superfície do lago. Entrando no final de tarde, em quanto a água estava ficando sempre mais dourada o homem da beira deixou seu precioso transporte seguro e pronto para as novas labutas_ do dia seguinte.
Legenda limitada (max 500 caracteres, resumo geral das narrativas, suporte sintético com revisão humana)
A cadência do remo é o medidor do tempo da Amazônia. Entre a força muscular descrita por Reis e a observação mística de Tocantins, o ribeirinho remando surge como o verdadeiro arquiteto da geografia fluvial. Ele não domina o rio pelo esforço, mas pela aderência: o remo entra na água para buscar o apoio necessário para o próximo avanço, em um ciclo que Galvão identifica como a escrita efêmera de uma vida de resistência. No final, como intuiu Veríssimo, remar é a forma mais pura de pertencimento, onde o homem e a madeira se tornam um só elemento na vasta correnteza do destino amazônico.
Baseado em temas de Tocantins, Galvão, Reis e Veríssimo.
Localidade da tomada
Data e hora da tomada fotográfica
Palavras-chave (seleção humana, inteiramente manual)
Glossário (suporte sintético com revisão humana)
Descrição
Termo que designa o habitante tradicional das margens dos rios e canais da Amazônia. Resultante de um longo processo de miscigenação entre populações indígenas, colonizadores europeus e, em muitos casos, descendentes de africanos, o ribeirinho desenvolveu uma cultura profundamente adaptada aos ciclos hidrológicos de cheia e vazante. Sua subsistência baseia-se tradicionalmente na pequena agricultura de várzea, na pesca artesanal e no extrativismo vegetal. A identidade ribeirinha é intrinsecamente ligada ao ecossistema fluvial, manifestando-se em conhecimentos vernáculos sobre a floresta, na arquitetura das casas de palafita e em uma organização social que prioriza a solidariedade comunitária e a autonomia em relação aos centros urbanos (GALVÃO, 1955).
Descrição
O termo, muito comum na Amazônia designa o trabalho árduo, a faina diária ou o esforço persistente necessário para a subsistência. Mais do que o simples emprego ou ocupação, a labuta implica uma dimensão física e moral de perseverança frente a condições muitas vezes adversas. No contexto amazônico, o termo é frequentemente associado ao ciclo ininterrupto de atividades ligadas à terra e ao rio — como a colheita do açaí, a pesca e a agricultura de subsistência — onde o ritmo do trabalho é ditado pela natureza e pela resistência do corpo (CASCUDO, 1967).
Descrição
Embarcação tradicional de pequeno porte, construída em madeira, movida a remo ou por motores de popa de baixa potência (conhecidos como rabetas). É o meio de transporte elementar das populações ribeirinhas, utilizada para curtas distâncias, pesca artesanal e para o transporte do açaí das matas de várzea até os pontos de coleta ou barcos maiores. Sua estrutura leve e calado raso permitem a navegação em igarapés estreitos e áreas de vegetação densa onde embarcações maiores não conseguem penetrar (PENTEADO, 1968).
Paráfrase com atribuição autoral (suporte sintético com revisão humana)
TOCANTINS, Leandro. (1987)
O caboclo remando é a estátua da paciência. Seu corpo não se curva sob o esforço, mas acompanha o balanço da canoa em um ritmo de pêndulo, transformando a fadiga em uma espécie de repouso em movimento, enquanto seus olhos perscrutam o horizonte de águas em busca do sinal da maré.
TOCANTINS, Leandro. (1987)
O remo é a pena com que o ribeirinho escreve sua história sobre a face movediça dos rios. Sem o barulho dos motores, o que se ouve é apenas o 'cloc' da madeira na água e o suspiro da correnteza, sons que compõem a sinfonia silenciosa de quem vive na fronteira entre a terra e a inundação.
GALVÃO, Eduardo. (1955)
A canoa de voga, movida por remadores experientes, vencia as distâncias amazônicas antes que o vapor chegasse. Era uma navegação de esforço heróico, onde a vida dependia da força dos braços e do conhecimento dos furos e igapós, caminhos que só o remo consegue desvendar sem ferir a floresta.
REIS, Arthur Cézar Ferreira. (1966)
Nas mãos do amazônida, o remo não é um instrumento de esporte, é um prolongamento do ser. Remar é um ato de subsistência e de cultura; é a consciência de que o rio não é um obstáculo, mas a estrada natural que Deus deu ao homem da selva.
VERÍSSIMO, José. (1886)
Não se deve confundir a labuta com o sofrimento; para o homem do interior, o trabalho braçal é a afirmação de sua vitalidade e de seu domínio sobre o meio. Há uma dignidade rústica nesse esforço contínuo que molda o caráter e calosa as mãos.
VERÍSSIMO, José. (1886)
Não há cena mais típica nos igarapés do que ver a criança ou o velho, sentados ao fundo da montaria, manuseando a cuia com uma rapidez mecânica. A canoa é o prolongamento de sua casa, e esgotá-la é o mesmo que varrer o chão; é o cuidado necessário para que o caminho não se torne naufrágio.
TOCANTINS, Leandro. (1987)
Referências bibliográficas
— REIS, Arthur Cézar Ferreira. A Amazônia e a cobiça internacional. Rio de Janeiro: Gráfica Record Editora, 1966.
— TOCANTINS, Leandro. Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987.
— VERÍSSIMO, José. Cenas da vida amazônica. Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1886.
GeoCoordinates
Fotógrafo
Tipo de camera
Captura da Imagem
Dimenções e tamanho do original
Capa
Anexos
Identificador uma palavra
Pessoas na foto
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Resumo dos metadados
Camera Nikon F5 with Nikkor lens 70-200mm f2.8
Diapositive Film Fujichrome Velvia 50
Scanner: Nikon SUPER COOLSCAN 5000 ED
Original digital capture of a real life scene -
Original file size: 5390px x 3627px Size: 28.2MB
Location Taken: Ilha de Silves - Itacoatiara - Amazonas - Brazil
Persons shown: silhueta
Coordenates: 2.83677° S - 58.21302° W
Date Taken: 1993
License: Creative Commons Attribution-NonCommercial (CC BY-NC)
Website: https://leonideprincipe.photos/
Source: Acervo PhotoAMAZONICA
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