Site experimental
Construção do site Acervo PhotoAmazonica.
O site está sendo construído ao vivo e tem como propósito a indexação de 5.000 fotografias a partir do Acervo PhotoAmazonica, um arquivo com mais de 100.000 realizado pelo fotógrafo Leonide Principe durante 30 anos de residência na Amazônia. Estas imagens devidamente indexadas com padrão museológico, custodiada no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, serão disponibilizadas ao público em geral, com direito de uso sem ônus na educação, na cultura e na pesquisa. Coloca-se como usuário prioritário do projeto o estudante do interior da Amazônia.
O livro 30 anos de floresta publicado pelo Conselho Editorial do Senado Federal está disponível em versão digital.
O sistema Tainacan
O sistema Tainacan nasceu e está sendo desenvolvido no Brasil pelo IBRAM (Instituto Brasileiros de Museus). É uma tecnologia brasileira, desenvolvida com base no software livre. Trata-se de um plugin do WordPress que simplifica e divulga o processo de indexação, dispensando o uso de software proprietários onerosos.
Este site, construído ao vivo, deseja informar o desenvolvimento e abordar assuntos de fotografia, de construção e administração de arquivos fotográficos, além de discussões e comentários sobre os registros analógico e digitais. O link Blog diz sobre os bastidores, as tecnologias utilizadas e os fluxos de trabalho, o link Acervo contém os registros fotográficos indexados, contextualizados e referenciados.
O link Blog do Menu Principal visualiza Posts sobre Novidades, Tecnologias e Metodologias utilizadas na construção do site e do Banco de Dado, isso inclui Taxonomia, desafios de programação, etc.
O link Acervo do Menu Principal abriga os Registros Fotográficos indexados com todos seus Metadados e motores de Busca especializados. Isso é o Banco de dados construído através do plugin Tainacan.
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Site experimental

No ano de 1989, com 38 anos, desembarquei no aeroporto de Manaus, o primeiro da fila a sair do avião. Quando a porta do avião abriu, aquele mormaço exagerado, abraçou a minha alma. A Amazônia conquistou-me e não demorei para descobrir o poder de encantamento que essa majestosa floresta transpirava em sua humidade extrema. A primeira reportagem sobre o boto-vermelho (Inia geoffrensis), por conta da agência fotográfica Sipa Press de Paris, se transformou, em pouco tempo, num projeto maior: um banco de imagens da Amazônia, de longo prazo. Isso descartava a minha próxima missão para uma guerra qualquer do Oriente Médio.
Na Amazônia, conta-se que quando a jiboia chega à sua maturidade, não mais sai do ninho, estabelece-se numa área que lhe convém e enfeitiça as presas, atraindo-as por magnetismo ao seu esconderijo. Assim fez a Amazônia comigo, ela atraiu-me e, conscientemente, eu entrei em suas entranhas.
Naquela barriga escura, aos poucos foi caçando a luz e capturei-a em minhas câmaras, fui explorando e registrando os cantos mais recônditos e exultei por todas as generosas revelações que foram surgindo e organizando-se no arquivo fotográfico… e na minha alma faminta de floresta.
Visit the page Cobra tem beleza A jiboia-arborícola-esmeralda (Corallus caninus) tem beleza.
Uma pessoa não acostumada ao ambiente amazônico de floresta, facilmente, ao ver este tipo de foto, se deixa levar por uma visão de extremo perigo: cobras de todo tipo, aranhas, animais monstruosos, se mexendo furtivamente no sub-bosque. Se você, querido leitor, tem esse tipo de sensação, permita-me observar que isto recalca as cenografias terroristas do cinema hollywoodiano,fartamente fundadas sobre o sensacionalismo exacerbado.
A parte a motivação comercial desse tipo mídia, geralmente incompatível com uma produção cultural sincera, vale ressaltar que o pior e incomensurável dano resulta numa sorta de medo preconceito, o qual se instala na mente das pessoas, um pavor irracional sobre os seres da natureza, entre os quais as serpentes são campeãs.
Visit the page Uma questão de território Cobra-cipó-verde (Leptophis ahaetulla)
Nada de grave, apenas uma questão de território fez a cobra-cipó enfrentar minha aproximação atrapalhada. Cheguei com minhas câmeras penduradas, mexendo na troca rápida de uma lente… perdão! Respirei fundo, relentei meus movimentos e logo a situação amansou-se.
Esta delgada serpente desliza entre os galhos das árvore com agilidade e rapidez. Quase que diariamente se faz presente nas redondezas da minha moradia e as vezes, através da vegetação que encosta nas paredes, fica passeando internamente, caçando lagartixas. Meus filhos se divertem com ela, observando seus movimentos e suas técnicas de caça.
Por serem territorialistas e inofensivas aos humanos, esses répteis representam uma certa margem de segurança afastando da área outros tipos de répteis peçonhentos. Por esse motivo sempre facilitei a presença de cobra-cipó, caninana, jiboias, jacuraru, todas elas inibidoras de espécies mais perigosas.
Viver na floresta sem portas e sem janelas abre um leque grande de comunicação com a natureza e se torna uma poderosa ferramenta de educação, especialmente para crianças, que aprendem a lidar e a respeitar os ‘vizinhos’ que visitam o espaço humano.
Visit the page Adotados Filhotes de quatá
Eu cheguei na casa do ribeirinho, cumprimentei toda a família e reparei que num canto do quintal havia dois filhotes de quatá, também conhecido como macaco-aranha (Ateles paniscus). O ribeirinho havia caçado a mãe deles e, como costuma-se fazer nesses casos resolveu trazer os filhotes para criar. É uma triste historia, quando observada de um ponto de vista urbano, porém no interior da Amazônia isso é normal. A mulher gravida sente desejo de comer carne de macaco, na verdade ela precisa de proteína que só pode ser encontrada na floresta.
Visit the page Eternamente fiéis Glorioso cartão postal
Por seu sucesso e sua ampla visibilidade, o beijo das araras tornou-se o símbolo do meu trabalho fotográfico e a minha marca registrada, pois entre todos os postais produzidos pela minha editora ele foi o mais comprado, um verdadeiro recorde de vendas. Além disso, foi publicado em várias revistas, livros e até anúncios publicitários. Este artigo é para contar como a fotografia foi realizada, em uma das primeiras expedições da minha jornada amazônica. A focal da minha lente zoom 80-200mm estava no máximo, em 200mm, no ângulo mais fechado, para um primeiro plano cheio. O uso do flash garantia a luz extra, que era necessária no sub-bosque, para propiciar uma fotografia nítida e contrastada. As araras viviam soltas em um hotel de selva, portanto bem acostumadas à presença humana. Elas estavam confortavelmente instaladas num galho e nada parecia interessá-las mais que seus paparicos.
Na sessão de tomadas, como é meu hábito, sigo um procedimento de prioridades como a impostação de tempo e abertura (com o grau de automatismo mais apropriado), a precisão do enquadramento (para que não haja necessidade de recortar a imagem) e o indiscutível foco nos olhos. A seguir, o dedo indicador fica de prontidão aos estímulos da circunstância. Naquela época analógica, o registro dos eventos não era tão generoso como agora, pois o fotógrafo tinha um limite de 36 poses a administrar: o filme não poderia acabar num momento de intensidade da cena. Assim que havia uma necessidade e um treinamento maior no que diz respeito ao ‘saber esperar o momento culminante da ação’. Na mesa de luz, na hora da avaliação e seleção dos cromos é que as estratégias utilizadas mostravam o seu valor e os detalhes capturados, favoráveis ou não. Ali apareciam decepções cruéis e alegres acertos, esperados e inesperados. Naquela ocasião eu levei para o laboratório uns 5-6 filmes por um total aproximado de 200 tomadas. E foi só na mesa de luz que eu vim descobrir esse beijo apaixonado, de olho fechado, com as penas da cabeça arrepiadas, o pescoço esticado de uma e o abrigo seguro na outra… é um verdadeiro romance! E não é por acaso que esta fotografia tornou-se a imagem simbólica do meu trabalho profissional. Dezenas de milhares de cartões postais foram enviado por turistas em visita à Amazônia e ao Brasil. As duas araras apaixonadas voaram os quatro cantos do planeta.
Na minha oca à beira da floresta
Agora eu moro numa oca à beira da floresta, e todo dia, araras voam sobre minha oca, quase sempre casais, e claro, sempre advogando, declamando, comentando e noticiando de alguma coisa. Às vezes me meto em suas conversas animadas e eternas, mas não sei se elas me ignoram, ou talvez me encontram como outro assunto para fofocar. Quando eu tenho a feliz oportunidade de ter um ninho nas proximidades da minha morada: elas estão mais frequentemente no ar ou comendo em alguma palmeira nas redondeza, e sua voz altamente expressiva me acompanha em minhas tarefas diárias, por horas, convocando-me a interpretar os assuntos da conversa. Tento entender o que é que elas tem tanto a tagarelar, reflito sobre essa personalidade forte e expressiva que tão naturalmente pertence ao céu da floresta tropical, seja por suas vozes, como por suas cores e elegância do voo. Por esta sua alta qualidade comunicativa, os nativos podem capturar filhotes para criar em suas casas ou para vender. É fácil entender como a arara que se torna um bicho de estimação, perde os conhecimentos essenciais que possuía na floresta e ainda destrói todas as fruteiras que estão nas proximidade da casa do ‘dono’. Porém a arara livre que vive na floresta já sabe tudo que precisa para perpetuar sua espécie, conhece as frutas da estação e onde elas estão, sabe quando estão maduras, pode comer algumas que são tóxicas e depois ingerir um barro que ajude na digestão. Às vezes, aquelas que adoram a vida tribal vivem em bandos, às vezes se juntam muitas delas, famílias e tribos, e fazem festivais nos buritizais… centenas de manifestantes voam, declamando, contestando e celebrando a vida.
Visit the page Monarca no ombro Monarca no ombro
Criança com borboleta monarca (Danaus plexippus) no ombro. A borboleta-monarca possui característica bem singular: longas jornadas migratórias a levam a milhares de quilômetros do seus lugar de nascimento, elas se orientam pelo sol e pelo campo magnético da Terra, e podem se passar até 5 gerações antes delas voltarem ao lugar de origem. A configuração das asas pode determinar o sexo da borboleta e a coloração extrovertida das mesma é um aviso para seus predadores pois é altamente indigesta.
Pois é, Kinan, ela veio te visitar. Não é por acaso, ela traz uma mensagem. Nossos remotos ancestrais diriam isso com muita naturalidade e até saberiam com precisão o conteúdo da mensagem. Quanto a nós, que temos detalhes científicos incríveis, sofremos e sentimos falta dessas habilidades sutis da alma.
Podemos chamar de interação com a natureza.
Visit the page Caminho de luz O ribeirinho rema num ritmo preciso, eficiente e constante. Sem cansar, ele pode remar por horas, como quando vai pra rua levar seus produtos e comprar seus mantimentos essenciais. A canoa desliza leve e silenciosa sobre a água. Pois, de o ribeirinho ser silencioso na pescaria, é indiscutível. Ele cala sua presença e o peixe não pode perceber que ele está lá, na espreita. Nunca o remo bate na borda da canoa, nem é jogado, apenas delicadamente apoiado. Os movimentos são suaves e calculados.
Onde o sol desenha uma hidrovia prateada, ali o fotógrafo caça o seu assunto privilegiado. Ali, da beira do lago de Silves, no município de Itacoatiara, eu vi o perfil inconfundível do canoeiro se aproximando. Ele vinha na minha direção, do jeito que os ribeirinhos da Amazônia remam, sentado na proa da canoa, perfeitamente alinhado dentro do caminho de luz do entardecer.
Essencial e reduzido ao mínimo, o casco da canoa requer uma habilidade adquirida desde criança, brincando e aprendendo naturalmente como manter o equilíbrio e remar daquele jeito sereno, plácido e eficiente. Onde há crianças e há uma canoa na beira, ali estão as crianças, todo dia, o dia todo, pulando, empurrando, virando, afundando e esgotando. É nesse momento que o ribeirinho adquire o domínio da sua «montaria», faz dela uma extensão do corpo, dando-lhe a liberdade de se movimentar naquele mundo de água sem fim, superar moitas de capim, navegar literalmente entre as árvore da floresta inundada, denominada igapó. A canoa oferece uma aprimorada agilidade cruzando de um rio a outro, navegando através de furos. Nas épocas de cheia, as águas entram na floresta, e ali também se refugiam os peixes, que se nutrem fartamente das frutas silvestres. O ribeirinho conhece a estação desses frutos, sabe quando caem e sabe dos ávidos apreciadores subaquáticos que deles se alimentam.
Ele fica de pé com a maior naturalidade numa embarcação altamente instável e cuja borda fica a poucos centímetros da água. Ele observa os mínimos movimentos da superfície da água. Assim sabe quem está ali, onde está indo, quantos há. Ele coloca e recolhe a malhadeira no ponto mais apropriado e ainda cuida para que o jacaré, a piranha ou o boto não cheguem antes dele. O ribeirinho arpoa peixes que as vezes têm o tamanho inteiro da embarcação: com o peixe arpoado, o bravo se deixa arrastar, surfando, até cansar a sua presa e conseguir embarcá-la naturalmente sem as dificuldades que um principiante afrontaria. Ainda, no sábado, leva a família toda para o jogo de futebol em outras vilas.
Visit the page Encontro de Gigantes Um barco regional de pescadores cruza o Encontro das Águas, nas proximidades de Manaus. O rio Negro de água preta encontra o rio Solimões de água branca, formando a partir desse momento o rio Amazonas. É um lugar muito especial, de uma força descomunal. Onde dois gigantes se encontram, estranhos seres podem nadar entre um lado e outro da fronteira das duas águas. Com uma profundidade média de 35 metros, o Encontro é um fenômeno natural excepcional, devido à marcada personalidade dos dois.
Visit the page Movida a açaí
Bem cedo, de manhã…
Belém é movida a açaí, verdade que o visitante pode comprovar. A geografia e o modo de viver foram talhados pela personalidade forte da natureza que a cerca. A fotografia ilustra bem essa predominância do açaí na culinária paraense: uma feira exclusiva só para negociar
O enquadramento, capturado às 5:10:47 AM, foi produzido dos altos muros do Forte do Presépio, na primeira luz azulada do dia, com as luzes da cidade ainda tremulando contra a escuridão que recua. No primeiro plano inferior direito (25% do quadro) avança a Feira do Açaí, protagonista inicial, já em plena atividade: espaço ao ar livre onde pilhas de cestos com o fruto roxo se amontoam no chão. À sua frente, o cais de pedra segura as águas da baía, nervosas, entre a maré do mar e a correnteza do rio, com dezenas de barcos atracados – os regatões que trazem a carga das várzeas onde a palmeira Euterpe oleracea reina.
No plano superior esquerdo, a Baía do Guajará, protagonista majestosa, impõe sua presença no crescente da claridade. Este vasto espelho d’água nasce do encontro dos rios Guamá e Acará, formando um estuário poderoso. No horizonte, por fim, eleva-se a silhueta do terceiro ator: o Mercado de Ferro — Ver-o-Peso, estrutura do século XIX desenhada contra o céu da alvorada, com suas embarcações à sombra.
A cena condensa a geografia vital de Belém: a matéria-prima da floresta, o grande porto natural e os símbolos do comércio. A paisagem narra, em silêncio, a história de um lugar forjado pelo Rio-Mãe.
Visit the page Cobra tem beleza A jiboia-arborícola-esmeralda (Corallus caninus) tem beleza.
Uma pessoa não acostumada ao ambiente amazônico de floresta, facilmente, ao ver este tipo de foto, se deixa levar por uma visão de extremo perigo: cobras de todo tipo, aranhas, animais monstruosos, se mexendo furtivamente no sub-bosque. Se você, querido leitor, tem esse tipo de sensação, permita-me observar que isto recalca as cenografias terroristas do cinema hollywoodiano,fartamente fundadas sobre o sensacionalismo exacerbado.
A parte a motivação comercial desse tipo mídia, geralmente incompatível com uma produção cultural sincera, vale ressaltar que o pior e incomensurável dano resulta numa sorta de medo preconceito, o qual se instala na mente das pessoas, um pavor irracional sobre os seres da natureza, entre os quais as serpentes são campeãs.
Visit the page Uma questão de território Cobra-cipó-verde (Leptophis ahaetulla)
Nada de grave, apenas uma questão de território fez a cobra-cipó enfrentar minha aproximação atrapalhada. Cheguei com minhas câmeras penduradas, mexendo na troca rápida de uma lente… perdão! Respirei fundo, relentei meus movimentos e logo a situação amansou-se.
Esta delgada serpente desliza entre os galhos das árvore com agilidade e rapidez. Quase que diariamente se faz presente nas redondezas da minha moradia e as vezes, através da vegetação que encosta nas paredes, fica passeando internamente, caçando lagartixas. Meus filhos se divertem com ela, observando seus movimentos e suas técnicas de caça.
Por serem territorialistas e inofensivas aos humanos, esses répteis representam uma certa margem de segurança afastando da área outros tipos de répteis peçonhentos. Por esse motivo sempre facilitei a presença de cobra-cipó, caninana, jiboias, jacuraru, todas elas inibidoras de espécies mais perigosas.
Viver na floresta sem portas e sem janelas abre um leque grande de comunicação com a natureza e se torna uma poderosa ferramenta de educação, especialmente para crianças, que aprendem a lidar e a respeitar os ‘vizinhos’ que visitam o espaço humano.
Visit the page Adotados Filhotes de quatá
Eu cheguei na casa do ribeirinho, cumprimentei toda a família e reparei que num canto do quintal havia dois filhotes de quatá, também conhecido como macaco-aranha (Ateles paniscus). O ribeirinho havia caçado a mãe deles e, como costuma-se fazer nesses casos resolveu trazer os filhotes para criar. É uma triste historia, quando observada de um ponto de vista urbano, porém no interior da Amazônia isso é normal. A mulher gravida sente desejo de comer carne de macaco, na verdade ela precisa de proteína que só pode ser encontrada na floresta.
Visit the page Eternamente fiéis Glorioso cartão postal
Por seu sucesso e sua ampla visibilidade, o beijo das araras tornou-se o símbolo do meu trabalho fotográfico e a minha marca registrada, pois entre todos os postais produzidos pela minha editora ele foi o mais comprado, um verdadeiro recorde de vendas. Além disso, foi publicado em várias revistas, livros e até anúncios publicitários. Este artigo é para contar como a fotografia foi realizada, em uma das primeiras expedições da minha jornada amazônica. A focal da minha lente zoom 80-200mm estava no máximo, em 200mm, no ângulo mais fechado, para um primeiro plano cheio. O uso do flash garantia a luz extra, que era necessária no sub-bosque, para propiciar uma fotografia nítida e contrastada. As araras viviam soltas em um hotel de selva, portanto bem acostumadas à presença humana. Elas estavam confortavelmente instaladas num galho e nada parecia interessá-las mais que seus paparicos.
Na sessão de tomadas, como é meu hábito, sigo um procedimento de prioridades como a impostação de tempo e abertura (com o grau de automatismo mais apropriado), a precisão do enquadramento (para que não haja necessidade de recortar a imagem) e o indiscutível foco nos olhos. A seguir, o dedo indicador fica de prontidão aos estímulos da circunstância. Naquela época analógica, o registro dos eventos não era tão generoso como agora, pois o fotógrafo tinha um limite de 36 poses a administrar: o filme não poderia acabar num momento de intensidade da cena. Assim que havia uma necessidade e um treinamento maior no que diz respeito ao ‘saber esperar o momento culminante da ação’. Na mesa de luz, na hora da avaliação e seleção dos cromos é que as estratégias utilizadas mostravam o seu valor e os detalhes capturados, favoráveis ou não. Ali apareciam decepções cruéis e alegres acertos, esperados e inesperados. Naquela ocasião eu levei para o laboratório uns 5-6 filmes por um total aproximado de 200 tomadas. E foi só na mesa de luz que eu vim descobrir esse beijo apaixonado, de olho fechado, com as penas da cabeça arrepiadas, o pescoço esticado de uma e o abrigo seguro na outra… é um verdadeiro romance! E não é por acaso que esta fotografia tornou-se a imagem simbólica do meu trabalho profissional. Dezenas de milhares de cartões postais foram enviado por turistas em visita à Amazônia e ao Brasil. As duas araras apaixonadas voaram os quatro cantos do planeta.
Na minha oca à beira da floresta
Agora eu moro numa oca à beira da floresta, e todo dia, araras voam sobre minha oca, quase sempre casais, e claro, sempre advogando, declamando, comentando e noticiando de alguma coisa. Às vezes me meto em suas conversas animadas e eternas, mas não sei se elas me ignoram, ou talvez me encontram como outro assunto para fofocar. Quando eu tenho a feliz oportunidade de ter um ninho nas proximidades da minha morada: elas estão mais frequentemente no ar ou comendo em alguma palmeira nas redondeza, e sua voz altamente expressiva me acompanha em minhas tarefas diárias, por horas, convocando-me a interpretar os assuntos da conversa. Tento entender o que é que elas tem tanto a tagarelar, reflito sobre essa personalidade forte e expressiva que tão naturalmente pertence ao céu da floresta tropical, seja por suas vozes, como por suas cores e elegância do voo. Por esta sua alta qualidade comunicativa, os nativos podem capturar filhotes para criar em suas casas ou para vender. É fácil entender como a arara que se torna um bicho de estimação, perde os conhecimentos essenciais que possuía na floresta e ainda destrói todas as fruteiras que estão nas proximidade da casa do ‘dono’. Porém a arara livre que vive na floresta já sabe tudo que precisa para perpetuar sua espécie, conhece as frutas da estação e onde elas estão, sabe quando estão maduras, pode comer algumas que são tóxicas e depois ingerir um barro que ajude na digestão. Às vezes, aquelas que adoram a vida tribal vivem em bandos, às vezes se juntam muitas delas, famílias e tribos, e fazem festivais nos buritizais… centenas de manifestantes voam, declamando, contestando e celebrando a vida.
Visit the page Monarca no ombro Monarca no ombro
Criança com borboleta monarca (Danaus plexippus) no ombro. A borboleta-monarca possui característica bem singular: longas jornadas migratórias a levam a milhares de quilômetros do seus lugar de nascimento, elas se orientam pelo sol e pelo campo magnético da Terra, e podem se passar até 5 gerações antes delas voltarem ao lugar de origem. A configuração das asas pode determinar o sexo da borboleta e a coloração extrovertida das mesma é um aviso para seus predadores pois é altamente indigesta.
Pois é, Kinan, ela veio te visitar. Não é por acaso, ela traz uma mensagem. Nossos remotos ancestrais diriam isso com muita naturalidade e até saberiam com precisão o conteúdo da mensagem. Quanto a nós, que temos detalhes científicos incríveis, sofremos e sentimos falta dessas habilidades sutis da alma.
Podemos chamar de interação com a natureza.
Visit the page Caminho de luz O ribeirinho rema num ritmo preciso, eficiente e constante. Sem cansar, ele pode remar por horas, como quando vai pra rua levar seus produtos e comprar seus mantimentos essenciais. A canoa desliza leve e silenciosa sobre a água. Pois, de o ribeirinho ser silencioso na pescaria, é indiscutível. Ele cala sua presença e o peixe não pode perceber que ele está lá, na espreita. Nunca o remo bate na borda da canoa, nem é jogado, apenas delicadamente apoiado. Os movimentos são suaves e calculados.
Onde o sol desenha uma hidrovia prateada, ali o fotógrafo caça o seu assunto privilegiado. Ali, da beira do lago de Silves, no município de Itacoatiara, eu vi o perfil inconfundível do canoeiro se aproximando. Ele vinha na minha direção, do jeito que os ribeirinhos da Amazônia remam, sentado na proa da canoa, perfeitamente alinhado dentro do caminho de luz do entardecer.
Essencial e reduzido ao mínimo, o casco da canoa requer uma habilidade adquirida desde criança, brincando e aprendendo naturalmente como manter o equilíbrio e remar daquele jeito sereno, plácido e eficiente. Onde há crianças e há uma canoa na beira, ali estão as crianças, todo dia, o dia todo, pulando, empurrando, virando, afundando e esgotando. É nesse momento que o ribeirinho adquire o domínio da sua «montaria», faz dela uma extensão do corpo, dando-lhe a liberdade de se movimentar naquele mundo de água sem fim, superar moitas de capim, navegar literalmente entre as árvore da floresta inundada, denominada igapó. A canoa oferece uma aprimorada agilidade cruzando de um rio a outro, navegando através de furos. Nas épocas de cheia, as águas entram na floresta, e ali também se refugiam os peixes, que se nutrem fartamente das frutas silvestres. O ribeirinho conhece a estação desses frutos, sabe quando caem e sabe dos ávidos apreciadores subaquáticos que deles se alimentam.
Ele fica de pé com a maior naturalidade numa embarcação altamente instável e cuja borda fica a poucos centímetros da água. Ele observa os mínimos movimentos da superfície da água. Assim sabe quem está ali, onde está indo, quantos há. Ele coloca e recolhe a malhadeira no ponto mais apropriado e ainda cuida para que o jacaré, a piranha ou o boto não cheguem antes dele. O ribeirinho arpoa peixes que as vezes têm o tamanho inteiro da embarcação: com o peixe arpoado, o bravo se deixa arrastar, surfando, até cansar a sua presa e conseguir embarcá-la naturalmente sem as dificuldades que um principiante afrontaria. Ainda, no sábado, leva a família toda para o jogo de futebol em outras vilas.
Visit the page Encontro de Gigantes Um barco regional de pescadores cruza o Encontro das Águas, nas proximidades de Manaus. O rio Negro de água preta encontra o rio Solimões de água branca, formando a partir desse momento o rio Amazonas. É um lugar muito especial, de uma força descomunal. Onde dois gigantes se encontram, estranhos seres podem nadar entre um lado e outro da fronteira das duas águas. Com uma profundidade média de 35 metros, o Encontro é um fenômeno natural excepcional, devido à marcada personalidade dos dois.
Visit the page Movida a açaí
Bem cedo, de manhã…
Belém é movida a açaí, verdade que o visitante pode comprovar. A geografia e o modo de viver foram talhados pela personalidade forte da natureza que a cerca. A fotografia ilustra bem essa predominância do açaí na culinária paraense: uma feira exclusiva só para negociar
O enquadramento, capturado às 5:10:47 AM, foi produzido dos altos muros do Forte do Presépio, na primeira luz azulada do dia, com as luzes da cidade ainda tremulando contra a escuridão que recua. No primeiro plano inferior direito (25% do quadro) avança a Feira do Açaí, protagonista inicial, já em plena atividade: espaço ao ar livre onde pilhas de cestos com o fruto roxo se amontoam no chão. À sua frente, o cais de pedra segura as águas da baía, nervosas, entre a maré do mar e a correnteza do rio, com dezenas de barcos atracados – os regatões que trazem a carga das várzeas onde a palmeira Euterpe oleracea reina.
No plano superior esquerdo, a Baía do Guajará, protagonista majestosa, impõe sua presença no crescente da claridade. Este vasto espelho d’água nasce do encontro dos rios Guamá e Acará, formando um estuário poderoso. No horizonte, por fim, eleva-se a silhueta do terceiro ator: o Mercado de Ferro — Ver-o-Peso, estrutura do século XIX desenhada contra o céu da alvorada, com suas embarcações à sombra.
A cena condensa a geografia vital de Belém: a matéria-prima da floresta, o grande porto natural e os símbolos do comércio. A paisagem narra, em silêncio, a história de um lugar forjado pelo Rio-Mãe.




